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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Naquela noite.

Quando Nawar e Salimah apontaram na calçada, a primeira pessoa que viram foi a mãe da viúva, acenando da janela do prédio. Avisou que a bastellah estava pronta para o jantar. A moça agradeceu a senhora à porta, dizendo que ia para casa e desceria em breve, assim que o marido chegasse e os dois se aprontassem.
A casa estava envolta na penumbra do início de noite.
Ela largou a bolsa de pano por cima das bolsas de viagem. Precisavam arranjar um baú para colocar aquelas roupas, e talvez alguns cabides. Soltou um ruido de impaciência; não tinha nem uma semana e ela já se comportava como uma dona de casa.
Não é nada de mais, no fim das contas, ela refletia enquanto se lavava no chuveiro. Só queria que a vida ali fosse um pouco mais prática. Quanto menos coisas tivessem para se preocupar, melhor.
Enquanto enxugava os cabelos, ouviu a porta abrir e passos pesados e conhecidos ressoarem na sala.
"Estou em casa", Riyad avisou. Ela respondeu com um 'certo' entremunhado ao enxugar o rosto. "Não é assim", disse ele.
"Assim o quê?" Nawar indagou, virando o rosto em direção à cortina que a separava do rapaz.
"As mulheres dessa região costuma dizer 'seja bem-vindo' aos maridos quando eles chegam em casa."
"Ah... Certo." Ela franziu os lábios. "E quando a mulher chega em casa, o que ela diz pro marido?"
"Os maridos dizem que estão em casa. E elas dizem 'seja bem-vindo'."
"Não entendi a lógica."
Ela saiu do banheiro usando um vestido longo e florido, de mangas longas e busto coberto. Era de tecido leve, o que ia a calhar naquela noite morna. As roupas que conseguiram ali eram fabricadas naquela mesma região. Observou-o retirar as botas e deixá-las num canto., junto das sandálias de couro dos dois. Era um dos poucos homens razoavelmente organizados que conhecia, se não o único.
"Pela filosofia desse país os maridos são como navios, e as esposas são seus portos", ele explicou. "Ou algo assim."
"Acho que entendi", disse ela incerta. "Enfim. Seja bem-vindo."
Riyad olhou para ela, sorrindo-lhe levemente, e foi apanhar a toalha para tomar banho.
Mesmo o sorriso mais leve era contornado de várias covinhas. Ela havia notado aquilo desde que se conheceram, e era a lembrança mais antiga que guardava dele.
Em poucos minutos ele já havia tomado banho e se aprontado. Vestia uma túnica curta e calça, do mesmo tecido leve e verde-claro. Encontraram Salimah e sua mãe Nazeera esperando-os na minúscula sala de estar, que era ainda menor que a da casa deles. Perceberam então que o maior cômodo da casa era a cozinha, ocupada por uma mesa de madeira robusta e quatro cadeiras. Nazeera os convidou a sentar-se animadamente. Era uma senhora gentil, que a despeito das costas encurvadas e da bengalinha nodosa que usava para se apoiar, tinha bastante energia. Sentou-se junto com os convidados e se pôs a falar sobre como aquela vizinhança era tranquila e pacífica em relação ao resto da cidade. Nem mesmo os patrulheiros do governo andavam por ali. Era quase um paraíso.
"Estarão aqui em breve, mamãe", Salimah dizia enquanto cortava a bastellah e servia em pratos de cerâmica. "Dizem que querem proteger o povo dos guerrilheiros. Mas são gafanhotos num milharal. Vão arrasar esse lugar se vierem aqui."
"Não assuste os garotos assim" Nazeera reclamou. "Já basta morarem tão perto da zona de guerra. Oh meninos, queria que tivessem vindo pra cá anos atrás. Era uma beleza de lugar, antes da guerra estourar por aqui."
"Vi muitas construções antigas e abandonadas perto da metalúrgica onde trabalho" Riyad contou. "A cidade era habitada por ali também?"
"Sim, sim, de ponta a ponta, desde a estrada marginal até as serras. Muita gente morreu e muita casa foi demolida, desde que tudo começou."
O rapaz e a senhora, que estavam ao lado um do outro na mesa, logo iniciaram uma conversa sobre a guerra na qual ficaram profundamente imersos. Salimah os observava sorrindo; pela expressão surpresa dela, Nawar adivinhava que a viúva não imaginou que os dois fossem se dar tão bem.
"Como está?" ela indagou, apontando o prato da jovem. Ela se servira de arroz branco, vagens cozidas, purê de abóbora e uma fatia da bastellah, uma torta de massa dourada e recheada com frango e temperos deliciosos. "Está ótimo", ela respondeu com sinceridade. Não sabia se tinha sido o cansaço do dia de trabalho ou simplesmente a fome, mas não lembrava de já ter comido algo tão bom antes.
"Irei lhe ensinar a fazer", Salimah prometeu. "Seu Riyad não quer mais?"
Ele já havia terminado seu prato, mas conversava tão entretidamente com Nazeera que nem havia percebido.
"Oh sim, Salimah, muito obrigado." Ele lhe estendeu o prato, mas Nawar, que estava do seu outro lado, apanhou-o. Tinha percebido que os dois não haviam interagido muito como casal desde que chegaram, o que poderia ser um problema.
"Deixe que eu coloco, meu marido", lhe disse brandamente.
"Obrigado, querida", ele lhe sorriu com ternura, fazendo as anfitriãs olharem-nos encantadas.
"Oh Salimah, vá apanhar o vinho", Nazeera lembrou à filha, voltando a tagarelar tranquilamente com Riyad logo depois.
Ele sabe como ser convincente, Nawar pensava enquanto fatiava a massa suculenta, na bandeja em cima da pia. Gostaria de ter metade do poder de persuasão dele.
"Bonito ver vocês dois juntos" Salimah comentava enquanto apanhava um garrafão de vinho dentro do armário na cozinha. "Significam união."
"Mesmo? Nunca tinha percebido."
"Minha mãe se alegra em ver vocês. Venham mais vezes aqui."
"Não queremos incomodar vocês."
"Ora, em que vão nos incomodar? Minha mãe ia gostar muito. Ela gosta de conversar com homens jovens. Não a leve a mal. Ela tinha um filho da idade do seu marido. Meu irmão mais novo Abi. Eles às vezes viravam noites, conversando sobre qualquer coisa."
"O que houve com ele?" Nawar já tinha uma ligeira impressão de que sabia a resposta.
"A guerra o levou ano passado. Foi antes do meu marido."
"Sinto muito."
"Obrigada. Ele e meu marido devem estar juntos agora. Eram ótimos amigos."
Não havia mágoa ou tristeza em Salimah quando ela falava dos mortos queridos, Nawar percebeu. A viúva referia-se à guerra e suas mazela com inconfundível desprezo por aquela realidade absurda e violenta. Mas naquele momento, lembrando de seu irmão enquanto conversava, a saudade transparecia em sua voz. Ela sabia que o marido e o irmão estavam em paz. Mas gostaria que estivessem ali com ela.

Quando voltaram para o andar de cima sentiam-se agradavelmente cheios e tranquilos. O vinho forte os relaxara bastante também.
Nawar trocou de roupa rapidamente, enquanto Riyad guardava na geladeira a refratária de louça com o que ficara da bastellah, que Salimah insistiu que levassem.
"Foi interessante", ele comentou da cozinha. "A velha Nazeera conhece muita coisa daqui. E muita gente também."
"Ela encontrou um bom parceiro de conversas."
"É, encontramos um ao outro."
Ela se pôs a estender o tapete sobre o chão da sala, enquanto Riyad trocava a calça por uma bermuda folgada e tirava a túnica. O olhar de Nawar se demoraram um segundo sobre as diversas cicatrizes espalhadas pelas costas largas do companheiro, antes que voltasse ao seu trabalho. "Seria bom irmos lá outra vez", disse.
"Acha que sim?"
"Elas não têm muitas distrações. Acho que receber um casal de jovens forasteiros recém-casados foi um grande acontecimento pra elas."
"Sim", ele riu-se, sentando sobre o tapete estendido e remexendo na mochila. "Nesse caso, devíamos ir lá de novo. Mas vamos dar um tempo. Elas são tão pobres quanto nós; não podem cozinhar para duas pessoas a mais todos os dias."
"Percebi isso."
Ele ficou em silêncio, concentrado em escrever num bloco de papel. Tinha colocado os óculos que apanhara na mochila e usava para ler. Ficava bem diferente com eles, na opinião de Nawar. Mais sério. Ou mais velho. Não sabia dizer.
Ela apanhou um caderno e caneta em sua bolsa; também precisava trabalhar antes de dormir. Ofereceu água à Riyad, que recusou e agradeceu; ela foi para a mesa da cozinha. Preferia escrever lá, sobre uma mesa e afastada do rapaz. Não que ele realmente a incomodasse. Mas no momento, enquanto houvesse uma alternativa a estar na presença dele, ela preferia se afastar.
E à medida que dava os poucos passos que seguiam para a mesa da cozinha, podia sentir os olhos de Riyad lhe seguirem. Havia esquecido como era ter aqueles olhos lhe acompanhando. Fazia tanto tempo, que mesmo a sensação de conforto que eles ainda lhe traziam era estranha a ela.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Anos antes.


"Quantos anos ela tem?"
"Oito."
A menina na foto tinha cabelos escuros e cacheados envolvendo a cabeça e emoldurando um rosto moreno, de olhos redondos que traziam uma expressão vazia.
Havia sobrevivido aos ataques de guerrilheiros em seu povoado, graças à sua mãe, que lhe batera na cabeça para que ela desmaiasse e passasse por morta. Assim ela não viu sua mãe ser estuprada e assassinada em sua frente, e seu pai ser degolado e ter seus testículos e entranhas arrancadas. Os guerrilheiros devastaram todo o local e tudo o que a menina encontrou ao despertar foi sua casa, seu povoado, seus pais, em pedaços e em chamas. Tinha cinco anos.
Foi adotada por um grupo de freiras, que anos depois, não tendo como sustentar nem a si mesmas, mandaram-na para o orfanato onde deveria ter ido ao ser resgatada das ruínas de sua aldeia, e de onde as freiras a mantiveram a salvo por pouco tempo. No orfanato eram jogadas crianças de diferentes etnias, origens e criações. Não havia supervisão naquele lugar. As crianças eram largadas à sorte dentro do casarão, criando-se como animais, sujas, famintas e violentas. A garota passou menos de seis meses ali. Longe da paz do convento, tinha que brigar por comida e por um espaço para dormir todos os dias.  Havia sido emboscada por vários garotos mais velhos e violentada por todos, poucos dias antes. Naquela noite havia estourado uma rebelião entre os internos. Foi uma das raras ocasiões em que eles se uniram por algo em comum. No entanto, transpostos os muros da instituição, nenhum deles encontrou nenhuma resistência. Os dirigentes do orfanato não faziam a menor questão de mantê-los ali dentro.
A menina fora encontrada estendida na rua, prestes a  ser atacada por um bando de mendigos famintos. Lesheh parecia ter visto nela uma aprendiz em ótimas condições.
"A cabecinha dela está toda bagunçada", dizia o homem enquanto se aproximavam do quarto. "Ela viu e experimentou violência o bastante no pouco tempo que viveu. Está em condições perfeitas para o início do treinamento."
Jean observou o homem ao seu lado. Tinha as frontes calvas, olhos pequenos e o porte imponente de um homem de meia-idade que crescera em meio à morte. Via na garota nada menos que uma matéria-prima qualquer, como uma pelota de barro pronta para ser moldada e transformada num vaso resistente e útil aos intentos da organização.
"Nunca fiz isso antes, senhor", disse ele. "Não sei se eu sou a pessoa adequada pra iniciar esse tipo de candidato."
"Nunca fez? Que coisa. Você tem uma certa idade, pelo que ouvi dizer, não?"
"Verdade. Mas minha experiência desde que entrei pra Organização tem sido de campo, nada mais. Os poucos que tive que orientar já eram iniciados."
"Bom. Dizem que pra tudo há uma primeira vez, afinal. Mas não é tão difícil quanto parece."
"Pode me dar alguma recomendação, senhor?"
"Estabilize a mente perturbada dela, e assegure-se de ensinar a ela tudo o que é necessário. Apenas isso. Ela está abalada por dentro, e é esse abalo que manterá seu espírito acordado pra luta."
"Como estabilizo a mente de uma criança como ela?"
Eles pararam diante do quarto dela. Lesheh pôs uma mão firme sobre o ombro de Jean. "Lembre-se de registrar o método quando descobrí-lo. Vai ser muito útil aos nossos futuros treinadores."




Ela estava parada diante da janela, de costas para Jean, quando ele entrou.
Tinha sido recolhida naquela manhã. Reanimaram-na e lhe deram um pouco de sopa, e a trancaram no quarto. A menina não oferecera a menor resistência. Pelo que Lesheh dissera, ela parecia ter perdido a vontade de viver.
"Não deixe que ela perca", ele recomendara. "Faça com que ela queira viver. Nem que seja pra matar."
Como eu faço alguém querer isso, pensou ele. Deixou a ficha quase em branco em cima de um banco, que junto com a cama, eram toda a mobília do quarto. "Menininha", ele chamou-a com voz firme. "Consegue falar? Você é muda, ou surda, ou algo assim?"
A ficha não continha muitas informações sobre ela. Ali constava apenas a foto, tirada horas antes, e anotações rápidas sobre o estado físico dela. Desnutrida. Maltratada. Escoriações diversas. Provável infecção genital.
"Pode falar, não pode?" Ele decidiu se aproximar. Sua mão estendeu-se para tocar o ombro magro. Antes que o alcançasse ela virou-se num reflexo, encolhendo-se de encontro à janela, os olhos arregalados de pavor. Porém não gritou, não emitiu qualquer som. Apenas sua respiração tinha se acelerado.
"Não vou machucar você" Jean disse impassível, vendo algo estranho nos olhos escuros daquela menina. Algo que não aparecia na foto da ficha, e que ele não podia discernir no momento. "Vou cuidar de você por enquanto. Entendeu?"
Ela se afastou da parede devagar, os braços cruzados sobre o corpo. Baixou o olhar e respondeu numa vozinha sumida.
"Entendi."
"Certo." Jean sentou-se ao pé da cama, ficando ao lado da garota. "As pessoas que lhe deram banho viram algumas feridas em você. Arranhões e hematomas. Conseguiu isso na rua e no orfanato?"
Ela acenou devagar sem olhá-lo, os cachinhos balançando sobre sua cabeça.
"Sente algum incômodo entre as pernas? Na sua parte íntima?"
"Na frente" ela murmurou. "E atrás também."
"Certo" ele respondeu, sentindo um desconforto repentino no estômago. "Vou trazer um remédio pra você usar essa noite. É uma pomada pra matar bactérias. Sabe o que são bactérias?"
"São 'bichinhos'. Irmã Ley me ensinou."
"Ensinou bem. Vou trazer a pomada e soro, e um pouco de algodão e gaze. Posso trazer um espelhinho se quiser. Você vai se cuidar sozinha. Não vai ter ninguém aqui dentro pra te perturbar. Está segura aqui. Entendeu?"
Não houve resposta. Ela enxugava os olhos que os cabelos cobriam. Acenou com a cabeça novamente.
"Estamos entendidos então. Vou levar você a um médico amanhã." Ele foi até a menina e se abaixou até o nível dela. "Sou Jean Marselle. Qual o seu nome?"
Ela o olhou nos olhos, e por trás das lágrimas Jean finalmente reconheceu o que queimava neles.
Aquela menina não queria morrer. Não ainda.
As escoriações nos braços finos que a camisola não cobria e todas as marcas de violência naquela garota não deviam ser a coisa que mais doía nela. O que ela queria era ter como revidar. Mas era só uma criança, criada por freiras pacíficas e jogada num covil de pequenas feras. Não tinha forças. Não sabia como se defender, muito menos atacar. E isso a frustrava.
Mais que isso, a deixava furiosa.
"Você quer me bater?", indagou de repente, fazendo a menina dar um pequeno pulo para trás de susto.
"Bater em você?" ela repetiu confusa. "Por quê?"
"Porque acho que você bateu em poucas pessoas na sua vida. Mas já apanhou de muitas. Isso deve te deixar um pouco brava, não?"
Ela o fitou sem saber o que dizer por um momento.
"...Mas o que isso tem a ver com você?" indagou por fim.
"Eu disse que ia cuidar de você. Pode bater em mim, não vou revidar. Sou adulto, e um bem forte por sinal. Aguento bastante coisa. E do jeito que você é magrinha e doente, acho que nem vai me incomodar muito."
A menina olhou para ele indecisa, enquanto Jean se ajoelhava diante dela. "A porta está aberta", disse. "Não vou fazer nada, e se eu fizesse, você podia sair correndo."
"Você é grande e eu sou fraca", ela objetou. "Ia me alcançar sem nem se esforçar."
"Isso é verdade. Mas desde que você entrou aqui, ninguém te maltratou. Todos cuidaram de você. Se acha que vim aqui pra te machucar, então não precisa me bater. Vou sair e fechar a porta, e daqui a pouco outra pessoa vai vir com seus remédios."
Ele a olhava nos olhos, e ela mal piscava. Sentia que havia dominado toda a atenção dela, e que talvez jamais teria aquela chance de novo. Precisava manter o coração dela aberto, e o único meio que conhecia para fazer aquilo era abrindo o seu próprio também.
"Você conheceu poucas pessoas honradas em sua vida, menininha. Infelizmente não sou uma delas. Fiz muitas coisas ruins no passado, e ainda faço, todos os dias. Eu mato pessoas por dinheiro. É assim que ganho a vida."
Ela parecia decididamente assustada, mas continuava a ouví-lo. Jean respirou fundo antes de continuar.
"Todos que trabalham nessa organização começaram quando eram crianças. Como você. Meu chefe ordenou que lhe recolhessem das ruas, porque acha que você pode ser uma assassina em vez de virar mais um mendigo ou uma prostituta. Sabe o que são prostitutas, não?"
Ele procurou se manter firme quando a menina balançou a cabeça em sinal de negação, um ar desamparado nos grandes olhos que lhe fitavam. "São mulheres que deixam os homens fazer com elas o que aqueles garotos fizeram com você. Elas vendem o corpo por dinheiro. Algumas começaram bem jovens, na sua idade. Não estou dizendo que ser um assassino é uma opção melhor, menininha. Tirar uma vida é algo terrível, mesmo que a pessoa que você vai matar seja muito ruim."
"Vamos cuidar de você, até que esteja saudável de novo. Se não quiser ser uma assassina, poderá voltar para as ruas. E se escolher ficar, vou lhe ensinar o necessário pra que possa se defender. Pra que possa bater nas pessoas, até que elas não possam revidar. Vou te ensinar a matar pessoas. E é disso que você vai viver. Assim como eu."
"Sei que não pode confiar em mim agora, menininha. Não importa o que eu lhe diga ou proponha agora, sou um estranho, e não se deve confiar em estranhos. Mas eu não tenho intenção nenhuma de fazer mal a você. Por mais que minha palavra não valha nada, eu dou ela a você, menininha, com o resto de honra que ainda tenho. Se isso não for o bastante, venha até mim, e me bata até arrancar meu sangue. Até que consiga confiar em mim."
Porque não há outro jeito de ela confiar em alguém, ele pensou. Não depois de tudo que ela havia vivido. Ela precisava se sentir forte e respeitada. E Jean queria fazer qualquer coisa para manter viva a chama que vira nos olhos dela.
A garota se aproximou, hesitante. Ela queria acreditar, e talvez aquilo já fosse um começo. A mãozinha  se fechou num pequeno punho, ergueu-se no ar e desceu com força na direção da face dele. Jean virou o rosto com o impacto. Havia atingido um nervo doído em seu rosto.
"Boa, menininha" ele a animou. "Seu soco é bem certeiro. Quer tentar de novo?"
Ele mal terminou de falar e o outro punho o atingiu na outra face. Havia mais força sendo desferida naquele golpe, e quando o terceiro fez o septo nasal quase dobrar, percebeu que a menina havia confiado nele para descarregar toda sua raiva e frustração. Viu a expressão do rosto dela, surpresa e assustada por estar naquela situação bizarra, em que esmurrava alguém que tinha o triplo de seu tamanho e não era punida por isso. Lágrimas vieram aos olhos dela. Jean fechou os próprios, sorrindo por dentro ao perceber que aquela criancinha magricela estava lhe fazendo enxergar o vermelho da dor.
Quando sentiu os golpes diminuírem de intensidade ele a ouviu fungar baixinho. Estava realmente chorando. Ela percebeu que Jean a observava e parou, ofegante, os ossinhos das mãos levemente feridos. Cobertor de sangue dela, e de Jean.
"Obrigado, menininha" ele disse seriamente. "Obrigado por confiar em mim. Me sinto realmente honrado."
"Eu esmurrei você" disse ela atordoada, como se não acreditasse no que havia acabado de fazer. "Esmurrei até tirar sangue. Você não fez nada."
"Eu disse que não ia fazer", ele sorriu. "E não vou. Temos um trato agora. Você vai confiar em mim, e eu vou proteger você. É o nosso acordo. Um acordo selado com sangue", ele salientou, mostrando o líquido escorrendo do nariz dele.
"Sim", ela sorriu, um riso misturado com lágrimas. Jean estendeu a mão a ela, num cumprimento, e ela a apertou com força.
"Vou trazer os remédios", disse enquanto se levantava. "E um pouco de água pra lavar suas mãos. Seu soco é mesmo forte, menininha."
"Susquehanna", ela falou, fazendo com que ele se voltasse. "Susquehanna Évora. É meu nome."
"Sim", ele respondeu imediatamente. "Enquanto estiver aqui, será tratada por seu nome."
Ela assentiu satisfeita, e Jean retirou-se.