A luz do sol nascente se esgueirava entre as brechas na madeira velha da janela, lançando fachos tênues e mornos sobre o tapete da sala.
O calor suave alcançou o braço nu de Nawar, que despertou e sentou-se, esfregando os olhos. Os cabelos curtos e cacheados estavam presos com um elástico. Ela o retirou e passou os dedos continuamente entre os cachos , soltando-os. Bocejou longamente, e então olhou para Riyad, deitado no outro extremo do tapete.
Havia conhecido-o anos antes, e se reencontraram poucos dias atrás, mas ela ainda se pegava fitando absorta o rapaz.
Não podia evitar. Era a primeira vez que via alguém assim.
De qualquer modo, tomava o cuidado de fazê-lo sem que ele percebesse. Ser olhado daquela maneira, como alguém diferente, era o mais provável motivo para que ele preferisse manter aquilo em segredo. No fim das contas a natureza singular dele não exercia nenhuma influência sobre a missão que cumpririam ali. Portanto, ela não devia dar atenção demasiada àquele detalhe.
Ao menos era o que tentaria fazer.
Riyad despertou pouco depois.
Seus sentidos acordavam aos poucos, e o primeiro deles o fez olhar ao redor, tentando captar qualquer sinal da presença de Nawar. Assim que a ouviu escovar os dentes no banheiro, respirou fundo e levantou-se. Estirou os braços para cima, espreguiçando-se enquanto bocejava, e foi atrás de uma camisa para vestir.
Era um instinto que raramente usava, aquele de proteção. Passava a maior parte do tempo sozinho, e seu trabalho não consistia em cuidar de ninguém. Na verdade, a última vez que lembrava de ter querido proteger alguém foi justamente Nawar, alguns anos antes.
Não que ela precisasse daquilo agora, ou mesmo na época em que era só uma menina. Mas durante toda a sua vida, ele viu as poucas pessoas que representaram algo importante para ele lhe serem tiradas repentinamente. Aquela jovem era a única que lhe restava. A última pessoa significativa que compartilhara com ele o passar dos dias, ainda que por um breve momento no tempo.
Ela abriu a janela, banhando em sol o apartamento inteiro. Pôs água para ferver e preparou marmitas, enquanto ele dobrava os lençóis e o tapete na sala.
Começariam a trabalhar naquele dia. Ela numa casa de tintura artesanal, ele na metalúrgica da cidade. Apesar daquela região estar tomada por conflitos e guerrilhas internas, conseguir emprego ali não era difícil. Afinal os empregados que eram vitimados pela guerra precisavam ser substituídos. E eram muitos.
A calçada do conjunto residencial estava apinhada de trabalhadores à espera de transporte, e o ar matinal estava repleto de conversas em vozes cansadas, resmungos e o cheiro da fumaça de bombas vinda do outro lado da cidade. Muitos casais estavam ali, em silêncio, a maioria abraçados ou de mãos dadas. Riyad e Nawar estavam lado a lado, e trocaram um abraço rápido e terno quando o ônibus dela chegou. "Nos vemos à noite", disseram ao se despedirem.
A maioria dos passageiros era de mulheres, que seguiam para a tinturaria. Nawar sentou-se num banco vazio, cujo outro lugar foi ocupado por uma mulher que ela reconheceu como sendo a vizinha de baixo do seu prédio.
"Bom dia", ela lhe saudou timidamente.
"Bom dia", a mulher respondeu gentil. Chamava-se Salimah, era uma mulher de meia idade, pequena e ligeiramente encurvada pelos anos de trabalho. Tinha a tonalidade morena do povo daquela região, as faces cansadas e repletas de pequenas rugas, e longos cabelos grisalhos cobertos pelo véu tradicional. Os olhos agudos estudavam Nawar atentamente. "É minha nova vizinha, não?"
"Sim. Me mudei ontem para lá, junto com meu marido."
"Me perdoe por não ter ido ajudá-la. Minha mãe teve uma dor de cabeça muito forte, precisei ficar com ela a noite inteira."
"Oh, não se incomode conosco", Nawar começou a dizer, mas Salimah a interrompeu decidida. "Não é incômodo. Minha mãe amanheceu melhor e lamentou porque não pudemos receber vocês. Ela está assando uma bastelah para quando vocês chegarem à noite. Com a mudança, acho que não deu tempo para você preparar o jantar, não?
"Não", Nawar a encarou um tanto desconcertada. "Obrigada..."
"É o mínimo que podemos fazer", a mulher sorriu calorosamente. "Vamos dividir o mesmo chão. Nosso dever é cuidar dos que partilham nosso mundo conosco."
Nawar a ouvia num silêncio atencioso enquanto o ônibus passava por casas baixas e ainda fechadas. Não sabia muito dos costumes daquele povo, e escutar a fala rápida e enérgica de Salimah foi o bastante para espantar os resquícios de sono. Assim ficou sabendo sobre a vida daquela mulher, que perdeu o marido na guerra alguns meses antes, e sobre a guerra em si, um mal que assolava aquela região já faziam cinco anos. Salimah também perguntou sobre Nawar e seu marido, o que a jovem respondeu evasivamente, falando de forma vaga sobre um casamento contra a vontade dos pais dela e uma fuga de sua casa e de seu reino. A poucas palavras porém deixaram Salimah encantada, como se tivesse acabado de ouvir um conto de fadas.
"Mas não vieram a um lugar um pouco difícil de viver? Existem outras cidades e reinos mais calmos, onde não tem perigo de guerra, não é?"
"Eu sei. Mas justamente por ser tão improvável é que escolhemos este lugar. Meus pais jamais me procurariam aqui."
Os olhos de Salimah brilhavam.
"Corajosos", disse. "Espero que sejam felizes aqui, apesar de tudo. E você é uma mulher de sorte. Ele a olha como se você fosse um tesouro."
"Mesmo?" Nawar sorriu surpresa. Talvez tenha razão, ela pensou. Riyad sabia como ser convincente.
"Mas você não brilha para ele", a mulher comentou, deixando Nawar confusa. "Ele não a faz feliz?"
"Oh, não, não é isso" ela respondeu rapidamente. Talvez ela não fosse tão convincente quanto ele. "Estou um pouco cansada da viagem, é só isso. Mas estou feliz ao lado dele."
"Entendi", Salimah lhe lançou um olhar cúmplice. "São seus dias de sangue, não é? Por isso ele não pode fazê-la feliz por enquanto?"
Nawar fitou-a estarrecida, tentando assimilar o que ouvira.
"Uh... sim", respondeu incerta, querendo parecer o mais natural possível. "É isso mesmo."
"É a benção de todas as mulheres", Salimah riu. "Embora, a depender do marido, isso seja uma maldição. Seu marido deve tratá-la bem, não?"
"Sim", Nawar respondeu, sentindo-se cada vez menos confortável. E enquanto Salimah ia discorrendo sobre detalhes de sua antiga vida conjugal a moça ia se encolhendo um pouco no banco. Não tinha o costume de falar de si mesma, e ser exposta àquela intimidade repentina com uma quase desconhecida era para ela uma experiência digna de choque.
"Ela é jovem e bonita", o homem ao seu lado murmurou, fazendo Riyad voltar-se. "Tão cedo você vai precisar de mais uma esposa."
Os outros homens acenaram em concordância, analisando a situação com absoluta seriedade. Riyad sorriu, aproximando-se deles.
"Quantas esposas os homens costumam ter por aqui?", indagou ao que fez o comentário.
"Não mais de três" ele disse em tom de conselho. "Senão, sua casa vai virar o inferno na terra."
"Vou me lembrar disso" o rapaz agradeceu. "
A metalúrgica ficava no leste da cidade, a região mais distante da zona das guerrilhas. Riyad viu os homens que o interpelaram descerem do ônibus numa velha olaria, algumas quadras antes da fábrica. Despediram-se de Riyad, alertando-o para que cuidasse bem da esposa. Ele assentiu em resposta.
Ficou pensando no quanto ele era mais velho que aqueles homens. Talvez mais do que todos juntos. Ainda assim, não desprezava nenhum conselho que recebia. Ouví-los era uma maneira de reviver seu próprio passado e refletir sobre seus erros, além de conhecer um pouco da pessoa que o aconselhava. O povo daquela cidade era caloroso, amigável e se importava com seus semelhantes. Os homens mais velhos dali podiam encarar facilmente um rapaz qualquer como filho deles.
Era uma das coisas que apreciava naquele lugar.
O céu amarelado se abria sobre a grande fábrica. Vizinha a alguns prédios abandonados, era uma construção que transmitia ao mesmo tempo uma robusta solidez e a sensação de que desabaria a qualquer momento.Os alicerces de rocha bruta estavam assentados sobre os vários desníveis de uma dupla de colinas debastadas pelo tempo,de onde erguiam-se as paredes de madeira, e seus telhados de diversas alturas e distâncias lembrou a Riyad as favelas construídas sobre os morros do sul da cidade. Ao subir as escadas de uma das entradas com os outros empregados, ele viu imensos corredores e salões onde o ferro era fundido, trabalhado e negociado ali mesmo entre os mineiros.
"Vamos vender o ferro também?", indagou a outro empregado, um rapazinho esquálido de ar doentio e barba por fazer. "Tem muito minério aqui", ele respondeu numa voz cansada, os olhos rodeados por imensas olheiras perdidos num ponto desconhecido. "Podemos ficar com as sobras. É parte do nosso pagamento."
Hadi era como se chamava. Tinha grande interesse em juntar dinheiro o bastante para ir embora do país. Contou a Riyad que tinha uma esposa e duas filhas, e moravam na área patrulhada pelos guardas do governo. Mudaram-se dali havia poucos dias, estavam na zona pobre e perturbada pela guerra. Mas ao menos ele ia para o trabalho um pouco mais tranquilo.
"Minha mulher trabalhava na lavanderia do hospital" ele contava enquanto esperavam numa fila num corredor, para receberem dos supervisores as indicações de seus locais de trabalho. "Minha filha mais velha cuidava da menor pra podermos trabalhar. Ficavam só as duas em casa. E um dos patrulheiros do lado de fora. Essa gente não é de confiança, rapaz... Não é de confiança."
Sua fisionomia estava extremamente carregada. Riyad sentia que ele queria realmente falar a respeito, mesmo que aquilo parecesse revolver as entranhas do pequeno homem.
"E onde estão suas filhas agora?" indagou ele.
"Em casa. A mãe diminuiu um turno pra ficar com elas. Pelo menos a chance de morrerem juntas é maior."
Hadi lançou um sorriso cansado ao rapaz. "Quando a felicidade de um homem é saber que sua esposa e filhas podem morrer junto uma da outra, é porque as coisas não vão bem."
"Realmente" Riyad concordou pesaroso.
"Mas é assim" ele prosseguiu enquanto avançavam lentamente na fila. "As bestas da guerra matam, explodem e queimam. Dão a uma pessoa uma morte violenta e digna. Mas as bestas do governo não. São animais depravados e nojentos. E dão a uma pessoa uma existência de humilhação."
Ele fitou as faces amareladas do rapaz ao seu lado carregarem-se outra vez.
"Suas filhas estão bem?" indagou.
"Não" ele balançou a cabeça, baixando a voz num tom sombrio. "A mais velha não. Aqueles homens não prestam, rapaz. Aqueles homens são uns miseráveis filhos da puta. E por causa deles a menina está com a cabeça arruinada. Nunca mais vai ser a mesma."
"Sinto muito" Riyad pôs a mão sobre o ombro dele, consternado. "Quantos anos ela tem?"
"Oito."
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
sábado, 17 de setembro de 2011
Dias antes.
A echarpe de lã grossa aquecia seu pescoço, protegendo-a do vento frio que balançava seus cabelos e o tecido do sobretudo escuro.
Estava sentada num dos lugares vazios da arquibancada de um estádio esportivo. Era noite e o local estava deserto; a neblina fria flutuava ao redor dos refletores, dando um ar fantasmagórico ao gramado do campo.
Seus olhos moveram-se para o lado, quase imperceptivelmente. Logo depois voltaram a fitar o gramado lá embaixo.
Em instantes surgiu uma mulher, descendo a passos rápidos e firmes os degraus da arquibancada. Foi até a fileira onde ela se encontrava e tomou o assento ao seu lado.
"Deus, que frio." Usava um casaco grosso de peles, gorro e luvas. Era jovem, aparência frágil, rosto magro e oval e grandes olhos castanhos. Gesticulava delicadamente ao falar, e seu tom era manso e cordial. "Sinto muito por ter combinado aqui. Mas nossas linhas já não são seguras há tempos, tive que vir pessoalmente. Está me esperando há muito tempo?"
"Não." Seus olhos moveram-se em direção à entrada do estádio, percebendo a presença de mais duas pessoas ali. Não pode identificá-las, mas presumiu que estivessem apenas escoltando a mulher. "Estou pronta para receber as instruções."
"Claro, claro. Vamos a elas então."
O vento fazia as folhas secas rodopiarem timidamente sobre o concreto da plataforma vazia.
Ele observou o sol se pondo num horizonte de colinas escuras e árvores nuas. Era um fim de tarde de domingo e a estação estava vazia e silenciosa. O último trem do dia iria chegar dali a cinco minutos.
Seus ouvidos captaram o som de passos ecoando nas paredes do prédio. Voltou-se para o corredor de acesso, tentando ignorar uma ponta de ansiedade.
"Cheguei a tempo", ela murmurou, consultando o próprio relógio.
"Claro. Eu não partiria sem você."
Seu olhar se demorou sobre o dela por poucos segundos. "Tem razão", ela disse, dirigindo-lhe um sorriso breve e quase imperceptível. Postou-se ao seu lado à beira da plataforma, diante dos trilhos. "Como vai, professor?"
"Bem, e você?"
"Também."
Ficaram em silêncio, entendendo que ambos estavam bem na medida do possível. O que também podia significar que não estavam nada bem.
Ela está mais alta, pensou distraído, e sentindo-se um tanto idiota logo em seguida. Lógico que estaria alta. Faziam dez anos que não tinha notícias dela. Da última vez que a vira, era uma garotinha de doze anos. Seria impossível que ela não mudasse de aparência naquele tempo.
Se bem que, no caso dele, não era tão impossível assim.
Ela o observou perifericamente, entendendo o que sua tutora Noëlle lhe disse no estádio, na noite anterior. Estava exatamente do jeito que ela se lembrava. Mesma textura de pele. Mesmos traços. Mesmo porte alto e covinhas no rosto quando sorria, algo que ele fazia com frequência. Ainda devia fazer. Se o físico estava inalterado, sua personalidade devia estar mais conservada ainda.
"Noëlle me falou de você" murmurou sem encará-lo.
"Mesmo?" Dessa vez ele foi incapaz de ignorar sua ansiedade. "O que ela lhe disse?"
"Apenas o que eu precisava saber" respondeu indiferente. "O bastante pra que possamos cumprir nossa missão sem maiores problemas."
O apito do trem soou ao longe.
Estava sentada num dos lugares vazios da arquibancada de um estádio esportivo. Era noite e o local estava deserto; a neblina fria flutuava ao redor dos refletores, dando um ar fantasmagórico ao gramado do campo.
Seus olhos moveram-se para o lado, quase imperceptivelmente. Logo depois voltaram a fitar o gramado lá embaixo.
Em instantes surgiu uma mulher, descendo a passos rápidos e firmes os degraus da arquibancada. Foi até a fileira onde ela se encontrava e tomou o assento ao seu lado.
"Deus, que frio." Usava um casaco grosso de peles, gorro e luvas. Era jovem, aparência frágil, rosto magro e oval e grandes olhos castanhos. Gesticulava delicadamente ao falar, e seu tom era manso e cordial. "Sinto muito por ter combinado aqui. Mas nossas linhas já não são seguras há tempos, tive que vir pessoalmente. Está me esperando há muito tempo?"
"Não." Seus olhos moveram-se em direção à entrada do estádio, percebendo a presença de mais duas pessoas ali. Não pode identificá-las, mas presumiu que estivessem apenas escoltando a mulher. "Estou pronta para receber as instruções."
"Claro, claro. Vamos a elas então."
O vento fazia as folhas secas rodopiarem timidamente sobre o concreto da plataforma vazia.
Ele observou o sol se pondo num horizonte de colinas escuras e árvores nuas. Era um fim de tarde de domingo e a estação estava vazia e silenciosa. O último trem do dia iria chegar dali a cinco minutos.
Seus ouvidos captaram o som de passos ecoando nas paredes do prédio. Voltou-se para o corredor de acesso, tentando ignorar uma ponta de ansiedade.
"Cheguei a tempo", ela murmurou, consultando o próprio relógio.
"Claro. Eu não partiria sem você."
Seu olhar se demorou sobre o dela por poucos segundos. "Tem razão", ela disse, dirigindo-lhe um sorriso breve e quase imperceptível. Postou-se ao seu lado à beira da plataforma, diante dos trilhos. "Como vai, professor?"
"Bem, e você?"
"Também."
Ficaram em silêncio, entendendo que ambos estavam bem na medida do possível. O que também podia significar que não estavam nada bem.
Ela está mais alta, pensou distraído, e sentindo-se um tanto idiota logo em seguida. Lógico que estaria alta. Faziam dez anos que não tinha notícias dela. Da última vez que a vira, era uma garotinha de doze anos. Seria impossível que ela não mudasse de aparência naquele tempo.
Se bem que, no caso dele, não era tão impossível assim.
Ela o observou perifericamente, entendendo o que sua tutora Noëlle lhe disse no estádio, na noite anterior. Estava exatamente do jeito que ela se lembrava. Mesma textura de pele. Mesmos traços. Mesmo porte alto e covinhas no rosto quando sorria, algo que ele fazia com frequência. Ainda devia fazer. Se o físico estava inalterado, sua personalidade devia estar mais conservada ainda.
"Noëlle me falou de você" murmurou sem encará-lo.
"Mesmo?" Dessa vez ele foi incapaz de ignorar sua ansiedade. "O que ela lhe disse?"
"Apenas o que eu precisava saber" respondeu indiferente. "O bastante pra que possamos cumprir nossa missão sem maiores problemas."
O apito do trem soou ao longe.
sábado, 3 de setembro de 2011
Primeiro dia.
A casa ficava numa espécie de conjunto residencial, na periferia da cidade.
Tinha dois andares, sendo cada um deles um apartamento. No de baixo morava uma viúva e sua mãe. Eles ficariam no segundo andar.
A porta de entrada dava para uma sala minúscula, que era o maior cômodo da residência. Num canto havia um tapete de lã crua trançada rusticamente, enrolado num longo tubo apoiado no canto atrás da porta. Devia ser desenrolado e usado como cama à noite, fazendo da sala de estar o quarto de dormir. A direita da porta ficava a entrada do banheiro, onde uma cortina de lençol velho servia de porta.
Depois do quarto-sala os cômodos seguiam em forma de L pela casa. A entrada da cozinha dava direto para o lavabo de pedra, que ficava abaixo da única janela que havia ali. Naquele corredor estreito não havia muito lugar para algo além dos varais de roupas à esquerda da pia e a pequena mesa de refeições, que era encostada na parede oposta. Da mesa em diante o corredor dobrava de ângulo e ia encontrar a parede lateral do banheiro, dando espaço apenas para um fogão de duas bocas e uma geladeira caindo aos pedaços.
O local inteiro não devia medir mais de dez metros quadrados, embora a proprietária do imóvel garantisse que o espaço interno era de 15x10. O prédio em si não era muito grande visto de fora, o que diminuia o espanto ao se ver o interior da residência.
Ao menos era o que Riyad pensava ao depositar as sacolas de viagem num canto da sala. Observou o modo como Nawar encarava as paredes, e imaginou se ela não sentia uma certa claustrofobia ali dentro.
Ela passou as mãos pelos cabelos cacheados e curtos, negros como os olhos que percorriam o aposento. Ficou alguns segundos parada, sentindo na sola dos pés o frio áspero do contrapiso do banheiro. Por fim a mão alcançou a torneira, e a água caiu numa torrente gelada sobre o corpo moreno e esguio.
Ele observava o conteúdo da geladeira. Havia um vaso de água, uma leiteira vazia e, por algum motivo, um jogo de chá em porcelana verde-clara, já bem desgastada. Pôs na gaveta inferior algumas verduras que tinham comprado no mercado e um pedaço de carne de carneiro no congelador sem porta.
Nawar apareceu na cozinha-lavabo, de banho tomado, usando um short velho e uma camiseta. Ele imaginou que ela não pretendia sair de casa no momento, a menos que quisesse trocar de roupa rapidamente. Deixou em cima da mesa uma bolsa de plástico e tirou dela duas panelas, dois pratos, dois copos, talheres em dois também. A princípio não usariam muita coisa ali dentro.
"Tem um pacote de temperos aí dentro?" Riyad indagou enquanto separava algumas batatas e cenouras em cima da mesa.
"Sim" ela apanhou um embrulho de papel pardo no fundo da bolsa.
Os dois se dividiram no serviço de cortar as verduras e preparar a carne. Enquanto Riyad ia tomar banho, Nawar lavava os pratos. Ele voltou poucos minutos depois, os cabelos castanhos e lisos caindo úmidos sobre o rosto, o porte alto dos homens do oeste naquele rapaz de traços fortes e ar sereno. Nawar reparou na roupa dele, calça escura e uma camisa militar bastante puída. Provavelmente ele sairia depois do jantar, para comprar cigarros ou algo assim. Esperava que fosse para comprar cigarros. Ela estava mesmo precisando fumar.
Comeram o cozido acompanhado de chá oolong. Conversaram pouco, palavras trocadas sobre as providências que teriam que tomar, as compras que precisariam fazer.
O silêncio que pairava entre eles, longe de parecer constrangedor, era orgânico. Eles pareciam necessitar ficar imersos em seus pensamentos, e respeitavam aquela necessidade mútua.
O relógio em seu pulso marcava as nove da noite. O ruído distante de bombardeios podia ser ouvido dali.
Riyad jogou fora a ponta do cigarro e fechou a janela.
O tapete fora estendido e ocupava toda a área da sala. Sobre ele Nawar havia se recostado, usando algumas roupas enroladas como travesseiro, o lençol cobrindo-a até o pescoço. Ressonava levemente. Riyad apagou a lâmpada da sala e da cozinha, deixando só a do banheiro acesa.
Tirou a camisa e trocou o jeans por uma bermuda folgada. Fazia um calor ao qual ele não estava acostumado. Deitou ao lado da garota e jogou o lençol sobre si, apoiando a cabeça no braço.
Ficou observando as feições curvilíneas do rosto delicado dela. Havia algo em Nawar que parecia despertar nos outros a vontade de protegê-la, embora Riyad soubesse que a última coisa que ela precisava era proteção. Fitou por um momento o anel dourado no dedo da mão dela, e então ergueu a própria mão, observando o anel que também havia ali.
'Então, é assim que é a vida de casados', pensou num sorriso cansado, adormecendo logo depois.
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