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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Naquela noite.

Quando Nawar e Salimah apontaram na calçada, a primeira pessoa que viram foi a mãe da viúva, acenando da janela do prédio. Avisou que a bastellah estava pronta para o jantar. A moça agradeceu a senhora à porta, dizendo que ia para casa e desceria em breve, assim que o marido chegasse e os dois se aprontassem.
A casa estava envolta na penumbra do início de noite.
Ela largou a bolsa de pano por cima das bolsas de viagem. Precisavam arranjar um baú para colocar aquelas roupas, e talvez alguns cabides. Soltou um ruido de impaciência; não tinha nem uma semana e ela já se comportava como uma dona de casa.
Não é nada de mais, no fim das contas, ela refletia enquanto se lavava no chuveiro. Só queria que a vida ali fosse um pouco mais prática. Quanto menos coisas tivessem para se preocupar, melhor.
Enquanto enxugava os cabelos, ouviu a porta abrir e passos pesados e conhecidos ressoarem na sala.
"Estou em casa", Riyad avisou. Ela respondeu com um 'certo' entremunhado ao enxugar o rosto. "Não é assim", disse ele.
"Assim o quê?" Nawar indagou, virando o rosto em direção à cortina que a separava do rapaz.
"As mulheres dessa região costuma dizer 'seja bem-vindo' aos maridos quando eles chegam em casa."
"Ah... Certo." Ela franziu os lábios. "E quando a mulher chega em casa, o que ela diz pro marido?"
"Os maridos dizem que estão em casa. E elas dizem 'seja bem-vindo'."
"Não entendi a lógica."
Ela saiu do banheiro usando um vestido longo e florido, de mangas longas e busto coberto. Era de tecido leve, o que ia a calhar naquela noite morna. As roupas que conseguiram ali eram fabricadas naquela mesma região. Observou-o retirar as botas e deixá-las num canto., junto das sandálias de couro dos dois. Era um dos poucos homens razoavelmente organizados que conhecia, se não o único.
"Pela filosofia desse país os maridos são como navios, e as esposas são seus portos", ele explicou. "Ou algo assim."
"Acho que entendi", disse ela incerta. "Enfim. Seja bem-vindo."
Riyad olhou para ela, sorrindo-lhe levemente, e foi apanhar a toalha para tomar banho.
Mesmo o sorriso mais leve era contornado de várias covinhas. Ela havia notado aquilo desde que se conheceram, e era a lembrança mais antiga que guardava dele.
Em poucos minutos ele já havia tomado banho e se aprontado. Vestia uma túnica curta e calça, do mesmo tecido leve e verde-claro. Encontraram Salimah e sua mãe Nazeera esperando-os na minúscula sala de estar, que era ainda menor que a da casa deles. Perceberam então que o maior cômodo da casa era a cozinha, ocupada por uma mesa de madeira robusta e quatro cadeiras. Nazeera os convidou a sentar-se animadamente. Era uma senhora gentil, que a despeito das costas encurvadas e da bengalinha nodosa que usava para se apoiar, tinha bastante energia. Sentou-se junto com os convidados e se pôs a falar sobre como aquela vizinhança era tranquila e pacífica em relação ao resto da cidade. Nem mesmo os patrulheiros do governo andavam por ali. Era quase um paraíso.
"Estarão aqui em breve, mamãe", Salimah dizia enquanto cortava a bastellah e servia em pratos de cerâmica. "Dizem que querem proteger o povo dos guerrilheiros. Mas são gafanhotos num milharal. Vão arrasar esse lugar se vierem aqui."
"Não assuste os garotos assim" Nazeera reclamou. "Já basta morarem tão perto da zona de guerra. Oh meninos, queria que tivessem vindo pra cá anos atrás. Era uma beleza de lugar, antes da guerra estourar por aqui."
"Vi muitas construções antigas e abandonadas perto da metalúrgica onde trabalho" Riyad contou. "A cidade era habitada por ali também?"
"Sim, sim, de ponta a ponta, desde a estrada marginal até as serras. Muita gente morreu e muita casa foi demolida, desde que tudo começou."
O rapaz e a senhora, que estavam ao lado um do outro na mesa, logo iniciaram uma conversa sobre a guerra na qual ficaram profundamente imersos. Salimah os observava sorrindo; pela expressão surpresa dela, Nawar adivinhava que a viúva não imaginou que os dois fossem se dar tão bem.
"Como está?" ela indagou, apontando o prato da jovem. Ela se servira de arroz branco, vagens cozidas, purê de abóbora e uma fatia da bastellah, uma torta de massa dourada e recheada com frango e temperos deliciosos. "Está ótimo", ela respondeu com sinceridade. Não sabia se tinha sido o cansaço do dia de trabalho ou simplesmente a fome, mas não lembrava de já ter comido algo tão bom antes.
"Irei lhe ensinar a fazer", Salimah prometeu. "Seu Riyad não quer mais?"
Ele já havia terminado seu prato, mas conversava tão entretidamente com Nazeera que nem havia percebido.
"Oh sim, Salimah, muito obrigado." Ele lhe estendeu o prato, mas Nawar, que estava do seu outro lado, apanhou-o. Tinha percebido que os dois não haviam interagido muito como casal desde que chegaram, o que poderia ser um problema.
"Deixe que eu coloco, meu marido", lhe disse brandamente.
"Obrigado, querida", ele lhe sorriu com ternura, fazendo as anfitriãs olharem-nos encantadas.
"Oh Salimah, vá apanhar o vinho", Nazeera lembrou à filha, voltando a tagarelar tranquilamente com Riyad logo depois.
Ele sabe como ser convincente, Nawar pensava enquanto fatiava a massa suculenta, na bandeja em cima da pia. Gostaria de ter metade do poder de persuasão dele.
"Bonito ver vocês dois juntos" Salimah comentava enquanto apanhava um garrafão de vinho dentro do armário na cozinha. "Significam união."
"Mesmo? Nunca tinha percebido."
"Minha mãe se alegra em ver vocês. Venham mais vezes aqui."
"Não queremos incomodar vocês."
"Ora, em que vão nos incomodar? Minha mãe ia gostar muito. Ela gosta de conversar com homens jovens. Não a leve a mal. Ela tinha um filho da idade do seu marido. Meu irmão mais novo Abi. Eles às vezes viravam noites, conversando sobre qualquer coisa."
"O que houve com ele?" Nawar já tinha uma ligeira impressão de que sabia a resposta.
"A guerra o levou ano passado. Foi antes do meu marido."
"Sinto muito."
"Obrigada. Ele e meu marido devem estar juntos agora. Eram ótimos amigos."
Não havia mágoa ou tristeza em Salimah quando ela falava dos mortos queridos, Nawar percebeu. A viúva referia-se à guerra e suas mazela com inconfundível desprezo por aquela realidade absurda e violenta. Mas naquele momento, lembrando de seu irmão enquanto conversava, a saudade transparecia em sua voz. Ela sabia que o marido e o irmão estavam em paz. Mas gostaria que estivessem ali com ela.

Quando voltaram para o andar de cima sentiam-se agradavelmente cheios e tranquilos. O vinho forte os relaxara bastante também.
Nawar trocou de roupa rapidamente, enquanto Riyad guardava na geladeira a refratária de louça com o que ficara da bastellah, que Salimah insistiu que levassem.
"Foi interessante", ele comentou da cozinha. "A velha Nazeera conhece muita coisa daqui. E muita gente também."
"Ela encontrou um bom parceiro de conversas."
"É, encontramos um ao outro."
Ela se pôs a estender o tapete sobre o chão da sala, enquanto Riyad trocava a calça por uma bermuda folgada e tirava a túnica. O olhar de Nawar se demoraram um segundo sobre as diversas cicatrizes espalhadas pelas costas largas do companheiro, antes que voltasse ao seu trabalho. "Seria bom irmos lá outra vez", disse.
"Acha que sim?"
"Elas não têm muitas distrações. Acho que receber um casal de jovens forasteiros recém-casados foi um grande acontecimento pra elas."
"Sim", ele riu-se, sentando sobre o tapete estendido e remexendo na mochila. "Nesse caso, devíamos ir lá de novo. Mas vamos dar um tempo. Elas são tão pobres quanto nós; não podem cozinhar para duas pessoas a mais todos os dias."
"Percebi isso."
Ele ficou em silêncio, concentrado em escrever num bloco de papel. Tinha colocado os óculos que apanhara na mochila e usava para ler. Ficava bem diferente com eles, na opinião de Nawar. Mais sério. Ou mais velho. Não sabia dizer.
Ela apanhou um caderno e caneta em sua bolsa; também precisava trabalhar antes de dormir. Ofereceu água à Riyad, que recusou e agradeceu; ela foi para a mesa da cozinha. Preferia escrever lá, sobre uma mesa e afastada do rapaz. Não que ele realmente a incomodasse. Mas no momento, enquanto houvesse uma alternativa a estar na presença dele, ela preferia se afastar.
E à medida que dava os poucos passos que seguiam para a mesa da cozinha, podia sentir os olhos de Riyad lhe seguirem. Havia esquecido como era ter aqueles olhos lhe acompanhando. Fazia tanto tempo, que mesmo a sensação de conforto que eles ainda lhe traziam era estranha a ela.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Anos antes.


"Quantos anos ela tem?"
"Oito."
A menina na foto tinha cabelos escuros e cacheados envolvendo a cabeça e emoldurando um rosto moreno, de olhos redondos que traziam uma expressão vazia.
Havia sobrevivido aos ataques de guerrilheiros em seu povoado, graças à sua mãe, que lhe batera na cabeça para que ela desmaiasse e passasse por morta. Assim ela não viu sua mãe ser estuprada e assassinada em sua frente, e seu pai ser degolado e ter seus testículos e entranhas arrancadas. Os guerrilheiros devastaram todo o local e tudo o que a menina encontrou ao despertar foi sua casa, seu povoado, seus pais, em pedaços e em chamas. Tinha cinco anos.
Foi adotada por um grupo de freiras, que anos depois, não tendo como sustentar nem a si mesmas, mandaram-na para o orfanato onde deveria ter ido ao ser resgatada das ruínas de sua aldeia, e de onde as freiras a mantiveram a salvo por pouco tempo. No orfanato eram jogadas crianças de diferentes etnias, origens e criações. Não havia supervisão naquele lugar. As crianças eram largadas à sorte dentro do casarão, criando-se como animais, sujas, famintas e violentas. A garota passou menos de seis meses ali. Longe da paz do convento, tinha que brigar por comida e por um espaço para dormir todos os dias.  Havia sido emboscada por vários garotos mais velhos e violentada por todos, poucos dias antes. Naquela noite havia estourado uma rebelião entre os internos. Foi uma das raras ocasiões em que eles se uniram por algo em comum. No entanto, transpostos os muros da instituição, nenhum deles encontrou nenhuma resistência. Os dirigentes do orfanato não faziam a menor questão de mantê-los ali dentro.
A menina fora encontrada estendida na rua, prestes a  ser atacada por um bando de mendigos famintos. Lesheh parecia ter visto nela uma aprendiz em ótimas condições.
"A cabecinha dela está toda bagunçada", dizia o homem enquanto se aproximavam do quarto. "Ela viu e experimentou violência o bastante no pouco tempo que viveu. Está em condições perfeitas para o início do treinamento."
Jean observou o homem ao seu lado. Tinha as frontes calvas, olhos pequenos e o porte imponente de um homem de meia-idade que crescera em meio à morte. Via na garota nada menos que uma matéria-prima qualquer, como uma pelota de barro pronta para ser moldada e transformada num vaso resistente e útil aos intentos da organização.
"Nunca fiz isso antes, senhor", disse ele. "Não sei se eu sou a pessoa adequada pra iniciar esse tipo de candidato."
"Nunca fez? Que coisa. Você tem uma certa idade, pelo que ouvi dizer, não?"
"Verdade. Mas minha experiência desde que entrei pra Organização tem sido de campo, nada mais. Os poucos que tive que orientar já eram iniciados."
"Bom. Dizem que pra tudo há uma primeira vez, afinal. Mas não é tão difícil quanto parece."
"Pode me dar alguma recomendação, senhor?"
"Estabilize a mente perturbada dela, e assegure-se de ensinar a ela tudo o que é necessário. Apenas isso. Ela está abalada por dentro, e é esse abalo que manterá seu espírito acordado pra luta."
"Como estabilizo a mente de uma criança como ela?"
Eles pararam diante do quarto dela. Lesheh pôs uma mão firme sobre o ombro de Jean. "Lembre-se de registrar o método quando descobrí-lo. Vai ser muito útil aos nossos futuros treinadores."




Ela estava parada diante da janela, de costas para Jean, quando ele entrou.
Tinha sido recolhida naquela manhã. Reanimaram-na e lhe deram um pouco de sopa, e a trancaram no quarto. A menina não oferecera a menor resistência. Pelo que Lesheh dissera, ela parecia ter perdido a vontade de viver.
"Não deixe que ela perca", ele recomendara. "Faça com que ela queira viver. Nem que seja pra matar."
Como eu faço alguém querer isso, pensou ele. Deixou a ficha quase em branco em cima de um banco, que junto com a cama, eram toda a mobília do quarto. "Menininha", ele chamou-a com voz firme. "Consegue falar? Você é muda, ou surda, ou algo assim?"
A ficha não continha muitas informações sobre ela. Ali constava apenas a foto, tirada horas antes, e anotações rápidas sobre o estado físico dela. Desnutrida. Maltratada. Escoriações diversas. Provável infecção genital.
"Pode falar, não pode?" Ele decidiu se aproximar. Sua mão estendeu-se para tocar o ombro magro. Antes que o alcançasse ela virou-se num reflexo, encolhendo-se de encontro à janela, os olhos arregalados de pavor. Porém não gritou, não emitiu qualquer som. Apenas sua respiração tinha se acelerado.
"Não vou machucar você" Jean disse impassível, vendo algo estranho nos olhos escuros daquela menina. Algo que não aparecia na foto da ficha, e que ele não podia discernir no momento. "Vou cuidar de você por enquanto. Entendeu?"
Ela se afastou da parede devagar, os braços cruzados sobre o corpo. Baixou o olhar e respondeu numa vozinha sumida.
"Entendi."
"Certo." Jean sentou-se ao pé da cama, ficando ao lado da garota. "As pessoas que lhe deram banho viram algumas feridas em você. Arranhões e hematomas. Conseguiu isso na rua e no orfanato?"
Ela acenou devagar sem olhá-lo, os cachinhos balançando sobre sua cabeça.
"Sente algum incômodo entre as pernas? Na sua parte íntima?"
"Na frente" ela murmurou. "E atrás também."
"Certo" ele respondeu, sentindo um desconforto repentino no estômago. "Vou trazer um remédio pra você usar essa noite. É uma pomada pra matar bactérias. Sabe o que são bactérias?"
"São 'bichinhos'. Irmã Ley me ensinou."
"Ensinou bem. Vou trazer a pomada e soro, e um pouco de algodão e gaze. Posso trazer um espelhinho se quiser. Você vai se cuidar sozinha. Não vai ter ninguém aqui dentro pra te perturbar. Está segura aqui. Entendeu?"
Não houve resposta. Ela enxugava os olhos que os cabelos cobriam. Acenou com a cabeça novamente.
"Estamos entendidos então. Vou levar você a um médico amanhã." Ele foi até a menina e se abaixou até o nível dela. "Sou Jean Marselle. Qual o seu nome?"
Ela o olhou nos olhos, e por trás das lágrimas Jean finalmente reconheceu o que queimava neles.
Aquela menina não queria morrer. Não ainda.
As escoriações nos braços finos que a camisola não cobria e todas as marcas de violência naquela garota não deviam ser a coisa que mais doía nela. O que ela queria era ter como revidar. Mas era só uma criança, criada por freiras pacíficas e jogada num covil de pequenas feras. Não tinha forças. Não sabia como se defender, muito menos atacar. E isso a frustrava.
Mais que isso, a deixava furiosa.
"Você quer me bater?", indagou de repente, fazendo a menina dar um pequeno pulo para trás de susto.
"Bater em você?" ela repetiu confusa. "Por quê?"
"Porque acho que você bateu em poucas pessoas na sua vida. Mas já apanhou de muitas. Isso deve te deixar um pouco brava, não?"
Ela o fitou sem saber o que dizer por um momento.
"...Mas o que isso tem a ver com você?" indagou por fim.
"Eu disse que ia cuidar de você. Pode bater em mim, não vou revidar. Sou adulto, e um bem forte por sinal. Aguento bastante coisa. E do jeito que você é magrinha e doente, acho que nem vai me incomodar muito."
A menina olhou para ele indecisa, enquanto Jean se ajoelhava diante dela. "A porta está aberta", disse. "Não vou fazer nada, e se eu fizesse, você podia sair correndo."
"Você é grande e eu sou fraca", ela objetou. "Ia me alcançar sem nem se esforçar."
"Isso é verdade. Mas desde que você entrou aqui, ninguém te maltratou. Todos cuidaram de você. Se acha que vim aqui pra te machucar, então não precisa me bater. Vou sair e fechar a porta, e daqui a pouco outra pessoa vai vir com seus remédios."
Ele a olhava nos olhos, e ela mal piscava. Sentia que havia dominado toda a atenção dela, e que talvez jamais teria aquela chance de novo. Precisava manter o coração dela aberto, e o único meio que conhecia para fazer aquilo era abrindo o seu próprio também.
"Você conheceu poucas pessoas honradas em sua vida, menininha. Infelizmente não sou uma delas. Fiz muitas coisas ruins no passado, e ainda faço, todos os dias. Eu mato pessoas por dinheiro. É assim que ganho a vida."
Ela parecia decididamente assustada, mas continuava a ouví-lo. Jean respirou fundo antes de continuar.
"Todos que trabalham nessa organização começaram quando eram crianças. Como você. Meu chefe ordenou que lhe recolhessem das ruas, porque acha que você pode ser uma assassina em vez de virar mais um mendigo ou uma prostituta. Sabe o que são prostitutas, não?"
Ele procurou se manter firme quando a menina balançou a cabeça em sinal de negação, um ar desamparado nos grandes olhos que lhe fitavam. "São mulheres que deixam os homens fazer com elas o que aqueles garotos fizeram com você. Elas vendem o corpo por dinheiro. Algumas começaram bem jovens, na sua idade. Não estou dizendo que ser um assassino é uma opção melhor, menininha. Tirar uma vida é algo terrível, mesmo que a pessoa que você vai matar seja muito ruim."
"Vamos cuidar de você, até que esteja saudável de novo. Se não quiser ser uma assassina, poderá voltar para as ruas. E se escolher ficar, vou lhe ensinar o necessário pra que possa se defender. Pra que possa bater nas pessoas, até que elas não possam revidar. Vou te ensinar a matar pessoas. E é disso que você vai viver. Assim como eu."
"Sei que não pode confiar em mim agora, menininha. Não importa o que eu lhe diga ou proponha agora, sou um estranho, e não se deve confiar em estranhos. Mas eu não tenho intenção nenhuma de fazer mal a você. Por mais que minha palavra não valha nada, eu dou ela a você, menininha, com o resto de honra que ainda tenho. Se isso não for o bastante, venha até mim, e me bata até arrancar meu sangue. Até que consiga confiar em mim."
Porque não há outro jeito de ela confiar em alguém, ele pensou. Não depois de tudo que ela havia vivido. Ela precisava se sentir forte e respeitada. E Jean queria fazer qualquer coisa para manter viva a chama que vira nos olhos dela.
A garota se aproximou, hesitante. Ela queria acreditar, e talvez aquilo já fosse um começo. A mãozinha  se fechou num pequeno punho, ergueu-se no ar e desceu com força na direção da face dele. Jean virou o rosto com o impacto. Havia atingido um nervo doído em seu rosto.
"Boa, menininha" ele a animou. "Seu soco é bem certeiro. Quer tentar de novo?"
Ele mal terminou de falar e o outro punho o atingiu na outra face. Havia mais força sendo desferida naquele golpe, e quando o terceiro fez o septo nasal quase dobrar, percebeu que a menina havia confiado nele para descarregar toda sua raiva e frustração. Viu a expressão do rosto dela, surpresa e assustada por estar naquela situação bizarra, em que esmurrava alguém que tinha o triplo de seu tamanho e não era punida por isso. Lágrimas vieram aos olhos dela. Jean fechou os próprios, sorrindo por dentro ao perceber que aquela criancinha magricela estava lhe fazendo enxergar o vermelho da dor.
Quando sentiu os golpes diminuírem de intensidade ele a ouviu fungar baixinho. Estava realmente chorando. Ela percebeu que Jean a observava e parou, ofegante, os ossinhos das mãos levemente feridos. Cobertor de sangue dela, e de Jean.
"Obrigado, menininha" ele disse seriamente. "Obrigado por confiar em mim. Me sinto realmente honrado."
"Eu esmurrei você" disse ela atordoada, como se não acreditasse no que havia acabado de fazer. "Esmurrei até tirar sangue. Você não fez nada."
"Eu disse que não ia fazer", ele sorriu. "E não vou. Temos um trato agora. Você vai confiar em mim, e eu vou proteger você. É o nosso acordo. Um acordo selado com sangue", ele salientou, mostrando o líquido escorrendo do nariz dele.
"Sim", ela sorriu, um riso misturado com lágrimas. Jean estendeu a mão a ela, num cumprimento, e ela a apertou com força.
"Vou trazer os remédios", disse enquanto se levantava. "E um pouco de água pra lavar suas mãos. Seu soco é mesmo forte, menininha."
"Susquehanna", ela falou, fazendo com que ele se voltasse. "Susquehanna Évora. É meu nome."
"Sim", ele respondeu imediatamente. "Enquanto estiver aqui, será tratada por seu nome."
Ela assentiu satisfeita, e Jean retirou-se.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Dia seguinte.

A luz do sol nascente se esgueirava entre as brechas na madeira velha da janela, lançando fachos tênues e mornos sobre o tapete da sala.
O calor suave alcançou o braço nu de Nawar, que despertou e sentou-se, esfregando os olhos. Os cabelos curtos e cacheados estavam presos com um elástico. Ela o retirou e passou os dedos continuamente entre os cachos , soltando-os. Bocejou longamente, e então olhou para Riyad, deitado no outro extremo do tapete.
Havia conhecido-o anos antes, e se reencontraram poucos dias atrás, mas ela ainda se pegava fitando absorta o rapaz.
Não podia evitar. Era a primeira vez que via alguém assim.
De qualquer modo, tomava o cuidado de fazê-lo sem que ele percebesse. Ser olhado daquela maneira, como alguém diferente, era o mais provável motivo para que ele preferisse manter aquilo em segredo. No fim das contas a natureza singular dele não exercia nenhuma influência sobre a missão que cumpririam ali. Portanto, ela não devia dar atenção demasiada àquele detalhe.
Ao menos era o que tentaria fazer.


Riyad despertou pouco depois.
Seus sentidos acordavam aos poucos, e o primeiro deles o fez olhar ao redor, tentando captar qualquer sinal da presença de Nawar. Assim que a ouviu escovar os dentes no banheiro, respirou fundo e levantou-se. Estirou os braços para cima, espreguiçando-se enquanto bocejava, e foi atrás de uma camisa para vestir.
Era um instinto que raramente usava, aquele de proteção. Passava a maior parte do tempo sozinho, e seu trabalho não consistia em cuidar de ninguém. Na verdade, a última vez que lembrava de ter querido proteger alguém foi justamente Nawar, alguns anos antes.
Não que ela precisasse daquilo agora, ou mesmo na época em que era só uma menina. Mas durante toda a sua vida, ele viu as poucas pessoas que representaram algo importante para ele lhe serem tiradas repentinamente. Aquela jovem era a única que lhe restava. A última pessoa significativa que compartilhara com ele o passar dos dias, ainda que por um breve momento no tempo.

Ela abriu a janela, banhando em sol o apartamento inteiro. Pôs água para ferver e preparou marmitas, enquanto ele dobrava os lençóis e o tapete na sala.
Começariam a trabalhar naquele dia. Ela numa casa de tintura artesanal, ele na metalúrgica da cidade. Apesar daquela região estar tomada por conflitos e guerrilhas internas, conseguir emprego ali não era difícil. Afinal os empregados que eram vitimados pela guerra precisavam ser substituídos. E eram muitos.
A calçada do conjunto residencial estava apinhada de trabalhadores à espera de transporte, e o ar matinal estava repleto de conversas em vozes cansadas, resmungos e o cheiro da fumaça de bombas vinda do outro lado da cidade. Muitos casais estavam ali, em silêncio, a maioria abraçados ou de mãos dadas. Riyad e Nawar estavam lado a lado, e trocaram um abraço rápido e terno quando o ônibus dela chegou. "Nos vemos à noite", disseram ao se despedirem.
A maioria dos passageiros era de mulheres, que seguiam para a tinturaria. Nawar sentou-se num banco vazio,  cujo outro lugar foi ocupado por uma mulher que ela reconheceu como sendo a vizinha de baixo do seu prédio.
"Bom dia", ela lhe saudou timidamente.
"Bom dia", a mulher respondeu gentil. Chamava-se Salimah, era uma mulher de meia idade, pequena e ligeiramente encurvada pelos anos de trabalho. Tinha a tonalidade morena do povo daquela região, as faces cansadas e repletas de pequenas rugas, e longos cabelos grisalhos cobertos pelo véu tradicional. Os olhos agudos estudavam Nawar atentamente. "É minha nova vizinha, não?"
"Sim. Me mudei ontem para lá, junto com meu marido."
"Me perdoe por não ter ido ajudá-la. Minha mãe teve uma dor de cabeça muito forte, precisei ficar com ela a noite inteira."
"Oh, não se incomode conosco", Nawar começou a dizer, mas Salimah a interrompeu decidida. "Não é incômodo. Minha mãe amanheceu melhor e lamentou porque não pudemos receber vocês. Ela está assando uma bastelah para quando vocês chegarem à noite. Com a mudança, acho que não deu tempo para você preparar o jantar, não?
"Não", Nawar a encarou um tanto desconcertada. "Obrigada..."
"É o mínimo que podemos fazer", a mulher sorriu calorosamente. "Vamos dividir o mesmo chão. Nosso dever é cuidar dos que partilham nosso mundo conosco."
Nawar a ouvia num silêncio atencioso enquanto o ônibus passava por casas baixas e ainda fechadas. Não sabia muito dos costumes daquele povo, e escutar a fala rápida e enérgica de Salimah foi o bastante para espantar os resquícios de sono. Assim ficou sabendo sobre a vida daquela mulher, que perdeu o marido na guerra alguns meses antes, e sobre a guerra em si, um mal que assolava aquela região já faziam cinco anos. Salimah também perguntou sobre Nawar e seu marido, o que a jovem respondeu evasivamente, falando de forma vaga sobre um casamento contra a vontade dos pais dela e uma fuga de sua casa e de seu reino. A poucas palavras porém deixaram Salimah encantada, como se tivesse acabado de ouvir um conto de fadas.
"Mas não vieram a um lugar um pouco difícil de viver? Existem outras cidades e reinos mais calmos, onde não tem perigo de guerra, não é?"
"Eu sei. Mas justamente por ser tão improvável é que escolhemos este lugar. Meus pais jamais me procurariam aqui."
Os olhos de Salimah brilhavam.
"Corajosos", disse. "Espero que sejam felizes aqui, apesar de tudo. E você é uma mulher de sorte. Ele a olha como se você fosse um tesouro."
"Mesmo?" Nawar sorriu surpresa. Talvez tenha razão, ela pensou. Riyad sabia como ser convincente.
"Mas você não brilha para ele", a mulher comentou, deixando Nawar confusa. "Ele não a faz feliz?"
"Oh, não, não é isso" ela respondeu rapidamente. Talvez ela não fosse tão convincente quanto ele. "Estou um pouco cansada da viagem, é só isso. Mas estou feliz ao lado dele."
"Entendi", Salimah lhe lançou um olhar cúmplice. "São seus dias de sangue, não é? Por isso ele não pode fazê-la feliz por enquanto?"
Nawar fitou-a estarrecida, tentando assimilar o que ouvira.
"Uh... sim", respondeu incerta, querendo parecer o mais natural possível. "É isso mesmo."
"É a benção de todas as mulheres", Salimah riu. "Embora, a depender do marido, isso seja uma maldição. Seu marido deve tratá-la bem, não?"
"Sim", Nawar respondeu, sentindo-se cada vez menos confortável. E enquanto Salimah ia discorrendo sobre detalhes de sua antiga vida conjugal a moça ia se encolhendo um pouco no banco. Não tinha o costume de falar de si mesma, e ser exposta àquela intimidade repentina com uma quase desconhecida era para ela uma experiência digna de choque.

"Ela é jovem e bonita", o homem ao seu lado murmurou, fazendo Riyad voltar-se. "Tão cedo você vai precisar de  mais uma esposa."
Os outros homens acenaram em concordância, analisando a situação com absoluta seriedade. Riyad sorriu, aproximando-se deles.
"Quantas esposas os homens costumam ter por aqui?", indagou ao que fez o comentário.
"Não mais de três" ele disse em tom de conselho. "Senão, sua casa vai virar o inferno na terra."
"Vou me lembrar disso" o rapaz agradeceu. "
A metalúrgica ficava no leste da cidade, a região mais distante da zona das guerrilhas. Riyad viu os homens que o interpelaram descerem do ônibus numa velha olaria, algumas quadras antes da fábrica. Despediram-se de Riyad, alertando-o para que cuidasse bem da esposa. Ele assentiu em resposta.
Ficou pensando no quanto ele era mais velho que aqueles homens. Talvez mais do que todos juntos. Ainda assim, não desprezava nenhum conselho que recebia. Ouví-los era uma maneira de reviver seu próprio passado e refletir sobre seus erros, além de conhecer um pouco da pessoa que o aconselhava. O povo daquela cidade era caloroso, amigável e se importava com seus semelhantes. Os homens mais velhos dali podiam encarar facilmente um rapaz qualquer como filho deles.
Era uma das coisas que apreciava naquele lugar.
O céu amarelado se abria sobre a grande fábrica. Vizinha a alguns prédios abandonados, era uma construção que transmitia ao mesmo tempo uma robusta solidez e a sensação de que desabaria a qualquer momento.Os alicerces de rocha bruta estavam assentados sobre os vários desníveis de uma dupla de colinas debastadas pelo tempo,de onde erguiam-se as paredes de madeira, e seus telhados de diversas alturas e distâncias lembrou a Riyad as favelas construídas sobre os morros do sul da cidade. Ao subir as escadas de uma das entradas com os outros empregados, ele viu imensos corredores e salões onde o ferro era fundido, trabalhado e negociado ali mesmo entre os mineiros.
"Vamos vender o ferro também?", indagou a outro empregado, um rapazinho esquálido de ar doentio e barba por fazer. "Tem muito minério aqui", ele respondeu numa voz cansada, os olhos rodeados por imensas olheiras perdidos num ponto desconhecido. "Podemos ficar com as sobras. É parte do nosso pagamento."
Hadi era como se chamava. Tinha grande interesse em juntar dinheiro o bastante para ir embora do país. Contou a Riyad que tinha uma esposa e duas filhas, e moravam na área patrulhada pelos guardas do governo. Mudaram-se dali havia poucos dias, estavam na zona pobre e perturbada pela guerra. Mas ao menos ele ia para o trabalho um pouco mais tranquilo.
"Minha mulher trabalhava na lavanderia do hospital" ele contava enquanto esperavam numa fila num corredor, para receberem dos supervisores as indicações de seus locais de trabalho. "Minha filha mais velha cuidava da menor pra podermos trabalhar. Ficavam só as duas em casa. E um dos patrulheiros do lado de fora. Essa gente não é de confiança, rapaz... Não é de confiança."
Sua fisionomia estava extremamente carregada. Riyad sentia que ele queria realmente falar a respeito, mesmo que aquilo parecesse revolver as entranhas do pequeno homem.
"E onde estão suas filhas agora?" indagou ele.
"Em casa. A mãe diminuiu um turno pra ficar com elas. Pelo menos a chance de morrerem juntas é maior."
Hadi lançou um sorriso cansado ao rapaz. "Quando a felicidade de um homem é saber que sua esposa e filhas podem morrer junto uma da outra, é porque as coisas não vão bem."
"Realmente" Riyad concordou pesaroso.
"Mas é assim" ele prosseguiu enquanto avançavam lentamente na fila. "As bestas da guerra matam, explodem e queimam. Dão a uma pessoa uma morte violenta e digna. Mas as bestas do governo  não. São animais depravados e nojentos. E dão a uma pessoa uma existência de humilhação."
Ele fitou as faces amareladas do rapaz ao seu lado carregarem-se outra vez.
"Suas filhas estão bem?" indagou.
"Não" ele balançou a cabeça, baixando a voz num tom sombrio. "A mais velha não. Aqueles homens não prestam, rapaz. Aqueles homens são uns miseráveis filhos da puta. E por causa deles a menina está com a cabeça arruinada. Nunca mais vai ser a mesma."
"Sinto muito" Riyad pôs a mão sobre o ombro dele, consternado. "Quantos anos ela tem?"
"Oito."

sábado, 17 de setembro de 2011

Dias antes.

A echarpe de lã grossa aquecia seu pescoço, protegendo-a do vento frio que balançava seus cabelos e o tecido do sobretudo escuro.
Estava sentada num dos lugares vazios da arquibancada de um estádio esportivo. Era noite e o local estava deserto; a neblina fria flutuava ao redor dos refletores, dando um ar fantasmagórico ao gramado do campo.
Seus olhos moveram-se para o lado, quase imperceptivelmente. Logo depois voltaram a fitar o gramado lá embaixo.
Em instantes surgiu uma mulher, descendo a passos rápidos e firmes os degraus da arquibancada. Foi até a fileira onde ela se encontrava e tomou o assento ao seu lado.
"Deus, que frio." Usava um casaco grosso de peles, gorro e luvas. Era jovem, aparência frágil, rosto magro e oval e grandes olhos castanhos. Gesticulava delicadamente ao falar, e seu tom era manso e cordial. "Sinto muito por ter combinado aqui. Mas nossas linhas já não são seguras há tempos, tive que vir pessoalmente. Está me esperando há muito tempo?"
"Não." Seus olhos moveram-se em direção à entrada do estádio, percebendo a presença de mais duas pessoas ali. Não pode identificá-las, mas presumiu que estivessem apenas escoltando a mulher. "Estou pronta para receber as instruções."
"Claro, claro. Vamos a elas então."

O vento fazia as folhas secas rodopiarem timidamente sobre o concreto da plataforma vazia.
Ele observou o sol se pondo num horizonte de colinas escuras e árvores nuas. Era um fim de tarde de domingo e a estação estava vazia e silenciosa. O último trem do dia iria chegar dali a cinco minutos.
Seus ouvidos captaram o som de passos ecoando nas paredes do prédio. Voltou-se para o corredor de acesso, tentando ignorar uma ponta de ansiedade.
"Cheguei a tempo", ela murmurou, consultando o próprio relógio.
"Claro. Eu não partiria sem você."
Seu olhar se demorou sobre o dela por poucos segundos. "Tem razão", ela disse, dirigindo-lhe um sorriso breve e quase imperceptível. Postou-se ao seu lado à beira da plataforma, diante dos trilhos. "Como vai, professor?"
"Bem, e você?"
"Também."
Ficaram em silêncio, entendendo que ambos estavam bem na medida do possível. O que também podia significar que não estavam nada bem.
Ela está mais alta, pensou distraído, e sentindo-se um tanto idiota logo em seguida. Lógico que estaria alta. Faziam dez anos que não tinha notícias dela. Da última vez que a vira, era uma garotinha de doze anos. Seria impossível que ela não mudasse de aparência naquele tempo.
Se bem que, no caso dele, não era tão impossível assim.
Ela o observou perifericamente, entendendo o que sua tutora Noëlle lhe disse no estádio, na noite anterior. Estava exatamente do jeito que ela se lembrava. Mesma textura de pele. Mesmos traços. Mesmo porte alto e covinhas no rosto quando sorria, algo que ele fazia com frequência. Ainda devia fazer. Se o físico estava inalterado, sua personalidade devia estar mais conservada ainda.
"Noëlle me falou de você" murmurou sem encará-lo.
"Mesmo?" Dessa vez ele foi incapaz de ignorar sua ansiedade. "O que ela lhe disse?"
"Apenas o que eu precisava saber" respondeu indiferente. "O bastante pra que possamos cumprir nossa missão sem maiores problemas."
O apito do trem soou ao longe.

sábado, 3 de setembro de 2011

Primeiro dia.

A casa ficava numa espécie de conjunto residencial, na periferia da cidade.
Tinha dois andares, sendo cada um deles um apartamento. No de baixo morava uma viúva e sua mãe. Eles ficariam no segundo andar.
A porta de entrada dava para uma sala minúscula, que era o maior cômodo da residência. Num canto havia um  tapete de lã crua trançada rusticamente, enrolado num longo tubo apoiado no canto atrás da porta. Devia ser desenrolado e usado como cama à noite, fazendo da sala de estar o quarto de dormir. A direita da porta ficava a entrada do banheiro, onde uma cortina de lençol velho servia de porta.
Depois do quarto-sala os cômodos seguiam em forma de L pela casa. A entrada da cozinha dava direto para o lavabo de pedra, que ficava abaixo da única janela que havia ali. Naquele corredor estreito não havia muito lugar para algo além dos varais de roupas à esquerda da pia e a pequena mesa de refeições, que era encostada na parede oposta. Da mesa em diante o corredor dobrava de ângulo e ia encontrar a parede lateral do banheiro, dando espaço apenas para um fogão de duas bocas e uma geladeira caindo aos pedaços.
O local inteiro não devia medir mais de dez metros quadrados, embora a proprietária do imóvel garantisse que o espaço interno era de 15x10. O prédio em si não era muito grande visto de fora, o que diminuia o espanto ao se ver o interior da residência.
Ao menos era o que Riyad pensava ao depositar as sacolas de viagem num canto da sala. Observou o modo como Nawar encarava as paredes, e imaginou se ela não sentia uma certa claustrofobia ali dentro.

Ela passou as mãos pelos cabelos cacheados e curtos, negros como os olhos que percorriam o aposento. Ficou alguns segundos parada, sentindo na sola dos pés o frio áspero do contrapiso do banheiro. Por fim a mão alcançou a torneira, e a água caiu numa torrente gelada sobre o corpo moreno e esguio.
Ele observava o conteúdo da geladeira. Havia um vaso de água, uma leiteira vazia e, por algum motivo, um jogo de chá em porcelana verde-clara, já bem desgastada. Pôs na gaveta inferior algumas verduras que tinham comprado no mercado e um pedaço de carne de carneiro no congelador sem porta. 
Nawar apareceu na cozinha-lavabo, de banho tomado, usando um short velho e uma camiseta. Ele imaginou que ela não pretendia sair de casa no momento, a menos que quisesse trocar de roupa rapidamente. Deixou em cima da mesa uma bolsa de plástico e tirou dela duas panelas, dois pratos, dois copos, talheres em dois também. A princípio não usariam muita coisa ali dentro. 
"Tem um pacote de temperos aí dentro?" Riyad indagou enquanto separava algumas batatas e cenouras em cima da mesa. 
"Sim" ela apanhou um embrulho de papel pardo no fundo da bolsa. 
Os dois se dividiram no serviço de cortar as verduras e preparar a carne. Enquanto Riyad ia tomar banho, Nawar lavava os pratos. Ele voltou poucos minutos depois, os cabelos castanhos e lisos caindo úmidos sobre o rosto, o porte alto dos homens do oeste naquele rapaz de traços fortes e ar sereno. Nawar reparou na roupa dele, calça escura e uma camisa militar bastante puída. Provavelmente ele sairia depois do jantar, para comprar cigarros ou algo assim. Esperava que fosse para comprar cigarros. Ela estava mesmo precisando fumar.
Comeram o cozido acompanhado de chá oolong. Conversaram pouco, palavras trocadas sobre as providências que teriam que tomar, as compras que precisariam fazer. 
O silêncio que pairava entre eles, longe de parecer constrangedor, era orgânico. Eles pareciam necessitar ficar imersos em seus pensamentos, e respeitavam aquela necessidade mútua.  

O relógio em seu pulso marcava as nove da noite. O ruído distante de bombardeios podia ser ouvido dali.
Riyad jogou fora a ponta do cigarro e fechou a janela.
O tapete fora estendido e ocupava toda a área da sala. Sobre ele Nawar havia se recostado, usando algumas roupas enroladas como travesseiro, o lençol cobrindo-a até o pescoço. Ressonava levemente. Riyad apagou a lâmpada da sala e da cozinha, deixando só a do banheiro acesa.
Tirou a camisa e trocou o jeans por uma bermuda folgada. Fazia um calor ao qual ele não estava acostumado. Deitou ao lado da garota e jogou o lençol sobre si, apoiando a cabeça no braço.
Ficou observando as feições curvilíneas do rosto delicado dela. Havia algo em Nawar que parecia despertar nos outros a vontade de protegê-la, embora Riyad soubesse que a última coisa que ela precisava era proteção. Fitou por um momento o anel dourado no dedo da mão dela, e então ergueu a própria mão, observando o anel que também havia ali.
'Então, é assim que é a vida de casados', pensou num sorriso cansado, adormecendo logo depois.