Quando Nawar e Salimah apontaram na calçada, a primeira pessoa que viram foi a mãe da viúva, acenando da janela do prédio. Avisou que a bastellah estava pronta para o jantar. A moça agradeceu a senhora à porta, dizendo que ia para casa e desceria em breve, assim que o marido chegasse e os dois se aprontassem.
A casa estava envolta na penumbra do início de noite.
Ela largou a bolsa de pano por cima das bolsas de viagem. Precisavam arranjar um baú para colocar aquelas roupas, e talvez alguns cabides. Soltou um ruido de impaciência; não tinha nem uma semana e ela já se comportava como uma dona de casa.
Não é nada de mais, no fim das contas, ela refletia enquanto se lavava no chuveiro. Só queria que a vida ali fosse um pouco mais prática. Quanto menos coisas tivessem para se preocupar, melhor.
Enquanto enxugava os cabelos, ouviu a porta abrir e passos pesados e conhecidos ressoarem na sala.
"Estou em casa", Riyad avisou. Ela respondeu com um 'certo' entremunhado ao enxugar o rosto. "Não é assim", disse ele.
"Assim o quê?" Nawar indagou, virando o rosto em direção à cortina que a separava do rapaz.
"As mulheres dessa região costuma dizer 'seja bem-vindo' aos maridos quando eles chegam em casa."
"Ah... Certo." Ela franziu os lábios. "E quando a mulher chega em casa, o que ela diz pro marido?"
"Os maridos dizem que estão em casa. E elas dizem 'seja bem-vindo'."
"Não entendi a lógica."
Ela saiu do banheiro usando um vestido longo e florido, de mangas longas e busto coberto. Era de tecido leve, o que ia a calhar naquela noite morna. As roupas que conseguiram ali eram fabricadas naquela mesma região. Observou-o retirar as botas e deixá-las num canto., junto das sandálias de couro dos dois. Era um dos poucos homens razoavelmente organizados que conhecia, se não o único.
"Pela filosofia desse país os maridos são como navios, e as esposas são seus portos", ele explicou. "Ou algo assim."
"Acho que entendi", disse ela incerta. "Enfim. Seja bem-vindo."
Riyad olhou para ela, sorrindo-lhe levemente, e foi apanhar a toalha para tomar banho.
Mesmo o sorriso mais leve era contornado de várias covinhas. Ela havia notado aquilo desde que se conheceram, e era a lembrança mais antiga que guardava dele.
Em poucos minutos ele já havia tomado banho e se aprontado. Vestia uma túnica curta e calça, do mesmo tecido leve e verde-claro. Encontraram Salimah e sua mãe Nazeera esperando-os na minúscula sala de estar, que era ainda menor que a da casa deles. Perceberam então que o maior cômodo da casa era a cozinha, ocupada por uma mesa de madeira robusta e quatro cadeiras. Nazeera os convidou a sentar-se animadamente. Era uma senhora gentil, que a despeito das costas encurvadas e da bengalinha nodosa que usava para se apoiar, tinha bastante energia. Sentou-se junto com os convidados e se pôs a falar sobre como aquela vizinhança era tranquila e pacífica em relação ao resto da cidade. Nem mesmo os patrulheiros do governo andavam por ali. Era quase um paraíso.
"Estarão aqui em breve, mamãe", Salimah dizia enquanto cortava a bastellah e servia em pratos de cerâmica. "Dizem que querem proteger o povo dos guerrilheiros. Mas são gafanhotos num milharal. Vão arrasar esse lugar se vierem aqui."
"Não assuste os garotos assim" Nazeera reclamou. "Já basta morarem tão perto da zona de guerra. Oh meninos, queria que tivessem vindo pra cá anos atrás. Era uma beleza de lugar, antes da guerra estourar por aqui."
"Vi muitas construções antigas e abandonadas perto da metalúrgica onde trabalho" Riyad contou. "A cidade era habitada por ali também?"
"Sim, sim, de ponta a ponta, desde a estrada marginal até as serras. Muita gente morreu e muita casa foi demolida, desde que tudo começou."
O rapaz e a senhora, que estavam ao lado um do outro na mesa, logo iniciaram uma conversa sobre a guerra na qual ficaram profundamente imersos. Salimah os observava sorrindo; pela expressão surpresa dela, Nawar adivinhava que a viúva não imaginou que os dois fossem se dar tão bem.
"Como está?" ela indagou, apontando o prato da jovem. Ela se servira de arroz branco, vagens cozidas, purê de abóbora e uma fatia da bastellah, uma torta de massa dourada e recheada com frango e temperos deliciosos. "Está ótimo", ela respondeu com sinceridade. Não sabia se tinha sido o cansaço do dia de trabalho ou simplesmente a fome, mas não lembrava de já ter comido algo tão bom antes.
"Irei lhe ensinar a fazer", Salimah prometeu. "Seu Riyad não quer mais?"
Ele já havia terminado seu prato, mas conversava tão entretidamente com Nazeera que nem havia percebido.
"Oh sim, Salimah, muito obrigado." Ele lhe estendeu o prato, mas Nawar, que estava do seu outro lado, apanhou-o. Tinha percebido que os dois não haviam interagido muito como casal desde que chegaram, o que poderia ser um problema.
"Deixe que eu coloco, meu marido", lhe disse brandamente.
"Obrigado, querida", ele lhe sorriu com ternura, fazendo as anfitriãs olharem-nos encantadas.
"Oh Salimah, vá apanhar o vinho", Nazeera lembrou à filha, voltando a tagarelar tranquilamente com Riyad logo depois.
Ele sabe como ser convincente, Nawar pensava enquanto fatiava a massa suculenta, na bandeja em cima da pia. Gostaria de ter metade do poder de persuasão dele.
"Bonito ver vocês dois juntos" Salimah comentava enquanto apanhava um garrafão de vinho dentro do armário na cozinha. "Significam união."
"Mesmo? Nunca tinha percebido."
"Minha mãe se alegra em ver vocês. Venham mais vezes aqui."
"Não queremos incomodar vocês."
"Ora, em que vão nos incomodar? Minha mãe ia gostar muito. Ela gosta de conversar com homens jovens. Não a leve a mal. Ela tinha um filho da idade do seu marido. Meu irmão mais novo Abi. Eles às vezes viravam noites, conversando sobre qualquer coisa."
"O que houve com ele?" Nawar já tinha uma ligeira impressão de que sabia a resposta.
"A guerra o levou ano passado. Foi antes do meu marido."
"Sinto muito."
"Obrigada. Ele e meu marido devem estar juntos agora. Eram ótimos amigos."
Não havia mágoa ou tristeza em Salimah quando ela falava dos mortos queridos, Nawar percebeu. A viúva referia-se à guerra e suas mazela com inconfundível desprezo por aquela realidade absurda e violenta. Mas naquele momento, lembrando de seu irmão enquanto conversava, a saudade transparecia em sua voz. Ela sabia que o marido e o irmão estavam em paz. Mas gostaria que estivessem ali com ela.
Quando voltaram para o andar de cima sentiam-se agradavelmente cheios e tranquilos. O vinho forte os relaxara bastante também.
Nawar trocou de roupa rapidamente, enquanto Riyad guardava na geladeira a refratária de louça com o que ficara da bastellah, que Salimah insistiu que levassem.
"Foi interessante", ele comentou da cozinha. "A velha Nazeera conhece muita coisa daqui. E muita gente também."
"Ela encontrou um bom parceiro de conversas."
"É, encontramos um ao outro."
Ela se pôs a estender o tapete sobre o chão da sala, enquanto Riyad trocava a calça por uma bermuda folgada e tirava a túnica. O olhar de Nawar se demoraram um segundo sobre as diversas cicatrizes espalhadas pelas costas largas do companheiro, antes que voltasse ao seu trabalho. "Seria bom irmos lá outra vez", disse.
"Acha que sim?"
"Elas não têm muitas distrações. Acho que receber um casal de jovens forasteiros recém-casados foi um grande acontecimento pra elas."
"Sim", ele riu-se, sentando sobre o tapete estendido e remexendo na mochila. "Nesse caso, devíamos ir lá de novo. Mas vamos dar um tempo. Elas são tão pobres quanto nós; não podem cozinhar para duas pessoas a mais todos os dias."
"Percebi isso."
Ele ficou em silêncio, concentrado em escrever num bloco de papel. Tinha colocado os óculos que apanhara na mochila e usava para ler. Ficava bem diferente com eles, na opinião de Nawar. Mais sério. Ou mais velho. Não sabia dizer.
Ela apanhou um caderno e caneta em sua bolsa; também precisava trabalhar antes de dormir. Ofereceu água à Riyad, que recusou e agradeceu; ela foi para a mesa da cozinha. Preferia escrever lá, sobre uma mesa e afastada do rapaz. Não que ele realmente a incomodasse. Mas no momento, enquanto houvesse uma alternativa a estar na presença dele, ela preferia se afastar.
E à medida que dava os poucos passos que seguiam para a mesa da cozinha, podia sentir os olhos de Riyad lhe seguirem. Havia esquecido como era ter aqueles olhos lhe acompanhando. Fazia tanto tempo, que mesmo a sensação de conforto que eles ainda lhe traziam era estranha a ela.
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