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sábado, 17 de setembro de 2011

Dias antes.

A echarpe de lã grossa aquecia seu pescoço, protegendo-a do vento frio que balançava seus cabelos e o tecido do sobretudo escuro.
Estava sentada num dos lugares vazios da arquibancada de um estádio esportivo. Era noite e o local estava deserto; a neblina fria flutuava ao redor dos refletores, dando um ar fantasmagórico ao gramado do campo.
Seus olhos moveram-se para o lado, quase imperceptivelmente. Logo depois voltaram a fitar o gramado lá embaixo.
Em instantes surgiu uma mulher, descendo a passos rápidos e firmes os degraus da arquibancada. Foi até a fileira onde ela se encontrava e tomou o assento ao seu lado.
"Deus, que frio." Usava um casaco grosso de peles, gorro e luvas. Era jovem, aparência frágil, rosto magro e oval e grandes olhos castanhos. Gesticulava delicadamente ao falar, e seu tom era manso e cordial. "Sinto muito por ter combinado aqui. Mas nossas linhas já não são seguras há tempos, tive que vir pessoalmente. Está me esperando há muito tempo?"
"Não." Seus olhos moveram-se em direção à entrada do estádio, percebendo a presença de mais duas pessoas ali. Não pode identificá-las, mas presumiu que estivessem apenas escoltando a mulher. "Estou pronta para receber as instruções."
"Claro, claro. Vamos a elas então."

O vento fazia as folhas secas rodopiarem timidamente sobre o concreto da plataforma vazia.
Ele observou o sol se pondo num horizonte de colinas escuras e árvores nuas. Era um fim de tarde de domingo e a estação estava vazia e silenciosa. O último trem do dia iria chegar dali a cinco minutos.
Seus ouvidos captaram o som de passos ecoando nas paredes do prédio. Voltou-se para o corredor de acesso, tentando ignorar uma ponta de ansiedade.
"Cheguei a tempo", ela murmurou, consultando o próprio relógio.
"Claro. Eu não partiria sem você."
Seu olhar se demorou sobre o dela por poucos segundos. "Tem razão", ela disse, dirigindo-lhe um sorriso breve e quase imperceptível. Postou-se ao seu lado à beira da plataforma, diante dos trilhos. "Como vai, professor?"
"Bem, e você?"
"Também."
Ficaram em silêncio, entendendo que ambos estavam bem na medida do possível. O que também podia significar que não estavam nada bem.
Ela está mais alta, pensou distraído, e sentindo-se um tanto idiota logo em seguida. Lógico que estaria alta. Faziam dez anos que não tinha notícias dela. Da última vez que a vira, era uma garotinha de doze anos. Seria impossível que ela não mudasse de aparência naquele tempo.
Se bem que, no caso dele, não era tão impossível assim.
Ela o observou perifericamente, entendendo o que sua tutora Noëlle lhe disse no estádio, na noite anterior. Estava exatamente do jeito que ela se lembrava. Mesma textura de pele. Mesmos traços. Mesmo porte alto e covinhas no rosto quando sorria, algo que ele fazia com frequência. Ainda devia fazer. Se o físico estava inalterado, sua personalidade devia estar mais conservada ainda.
"Noëlle me falou de você" murmurou sem encará-lo.
"Mesmo?" Dessa vez ele foi incapaz de ignorar sua ansiedade. "O que ela lhe disse?"
"Apenas o que eu precisava saber" respondeu indiferente. "O bastante pra que possamos cumprir nossa missão sem maiores problemas."
O apito do trem soou ao longe.

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