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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Dia seguinte.

A luz do sol nascente se esgueirava entre as brechas na madeira velha da janela, lançando fachos tênues e mornos sobre o tapete da sala.
O calor suave alcançou o braço nu de Nawar, que despertou e sentou-se, esfregando os olhos. Os cabelos curtos e cacheados estavam presos com um elástico. Ela o retirou e passou os dedos continuamente entre os cachos , soltando-os. Bocejou longamente, e então olhou para Riyad, deitado no outro extremo do tapete.
Havia conhecido-o anos antes, e se reencontraram poucos dias atrás, mas ela ainda se pegava fitando absorta o rapaz.
Não podia evitar. Era a primeira vez que via alguém assim.
De qualquer modo, tomava o cuidado de fazê-lo sem que ele percebesse. Ser olhado daquela maneira, como alguém diferente, era o mais provável motivo para que ele preferisse manter aquilo em segredo. No fim das contas a natureza singular dele não exercia nenhuma influência sobre a missão que cumpririam ali. Portanto, ela não devia dar atenção demasiada àquele detalhe.
Ao menos era o que tentaria fazer.


Riyad despertou pouco depois.
Seus sentidos acordavam aos poucos, e o primeiro deles o fez olhar ao redor, tentando captar qualquer sinal da presença de Nawar. Assim que a ouviu escovar os dentes no banheiro, respirou fundo e levantou-se. Estirou os braços para cima, espreguiçando-se enquanto bocejava, e foi atrás de uma camisa para vestir.
Era um instinto que raramente usava, aquele de proteção. Passava a maior parte do tempo sozinho, e seu trabalho não consistia em cuidar de ninguém. Na verdade, a última vez que lembrava de ter querido proteger alguém foi justamente Nawar, alguns anos antes.
Não que ela precisasse daquilo agora, ou mesmo na época em que era só uma menina. Mas durante toda a sua vida, ele viu as poucas pessoas que representaram algo importante para ele lhe serem tiradas repentinamente. Aquela jovem era a única que lhe restava. A última pessoa significativa que compartilhara com ele o passar dos dias, ainda que por um breve momento no tempo.

Ela abriu a janela, banhando em sol o apartamento inteiro. Pôs água para ferver e preparou marmitas, enquanto ele dobrava os lençóis e o tapete na sala.
Começariam a trabalhar naquele dia. Ela numa casa de tintura artesanal, ele na metalúrgica da cidade. Apesar daquela região estar tomada por conflitos e guerrilhas internas, conseguir emprego ali não era difícil. Afinal os empregados que eram vitimados pela guerra precisavam ser substituídos. E eram muitos.
A calçada do conjunto residencial estava apinhada de trabalhadores à espera de transporte, e o ar matinal estava repleto de conversas em vozes cansadas, resmungos e o cheiro da fumaça de bombas vinda do outro lado da cidade. Muitos casais estavam ali, em silêncio, a maioria abraçados ou de mãos dadas. Riyad e Nawar estavam lado a lado, e trocaram um abraço rápido e terno quando o ônibus dela chegou. "Nos vemos à noite", disseram ao se despedirem.
A maioria dos passageiros era de mulheres, que seguiam para a tinturaria. Nawar sentou-se num banco vazio,  cujo outro lugar foi ocupado por uma mulher que ela reconheceu como sendo a vizinha de baixo do seu prédio.
"Bom dia", ela lhe saudou timidamente.
"Bom dia", a mulher respondeu gentil. Chamava-se Salimah, era uma mulher de meia idade, pequena e ligeiramente encurvada pelos anos de trabalho. Tinha a tonalidade morena do povo daquela região, as faces cansadas e repletas de pequenas rugas, e longos cabelos grisalhos cobertos pelo véu tradicional. Os olhos agudos estudavam Nawar atentamente. "É minha nova vizinha, não?"
"Sim. Me mudei ontem para lá, junto com meu marido."
"Me perdoe por não ter ido ajudá-la. Minha mãe teve uma dor de cabeça muito forte, precisei ficar com ela a noite inteira."
"Oh, não se incomode conosco", Nawar começou a dizer, mas Salimah a interrompeu decidida. "Não é incômodo. Minha mãe amanheceu melhor e lamentou porque não pudemos receber vocês. Ela está assando uma bastelah para quando vocês chegarem à noite. Com a mudança, acho que não deu tempo para você preparar o jantar, não?
"Não", Nawar a encarou um tanto desconcertada. "Obrigada..."
"É o mínimo que podemos fazer", a mulher sorriu calorosamente. "Vamos dividir o mesmo chão. Nosso dever é cuidar dos que partilham nosso mundo conosco."
Nawar a ouvia num silêncio atencioso enquanto o ônibus passava por casas baixas e ainda fechadas. Não sabia muito dos costumes daquele povo, e escutar a fala rápida e enérgica de Salimah foi o bastante para espantar os resquícios de sono. Assim ficou sabendo sobre a vida daquela mulher, que perdeu o marido na guerra alguns meses antes, e sobre a guerra em si, um mal que assolava aquela região já faziam cinco anos. Salimah também perguntou sobre Nawar e seu marido, o que a jovem respondeu evasivamente, falando de forma vaga sobre um casamento contra a vontade dos pais dela e uma fuga de sua casa e de seu reino. A poucas palavras porém deixaram Salimah encantada, como se tivesse acabado de ouvir um conto de fadas.
"Mas não vieram a um lugar um pouco difícil de viver? Existem outras cidades e reinos mais calmos, onde não tem perigo de guerra, não é?"
"Eu sei. Mas justamente por ser tão improvável é que escolhemos este lugar. Meus pais jamais me procurariam aqui."
Os olhos de Salimah brilhavam.
"Corajosos", disse. "Espero que sejam felizes aqui, apesar de tudo. E você é uma mulher de sorte. Ele a olha como se você fosse um tesouro."
"Mesmo?" Nawar sorriu surpresa. Talvez tenha razão, ela pensou. Riyad sabia como ser convincente.
"Mas você não brilha para ele", a mulher comentou, deixando Nawar confusa. "Ele não a faz feliz?"
"Oh, não, não é isso" ela respondeu rapidamente. Talvez ela não fosse tão convincente quanto ele. "Estou um pouco cansada da viagem, é só isso. Mas estou feliz ao lado dele."
"Entendi", Salimah lhe lançou um olhar cúmplice. "São seus dias de sangue, não é? Por isso ele não pode fazê-la feliz por enquanto?"
Nawar fitou-a estarrecida, tentando assimilar o que ouvira.
"Uh... sim", respondeu incerta, querendo parecer o mais natural possível. "É isso mesmo."
"É a benção de todas as mulheres", Salimah riu. "Embora, a depender do marido, isso seja uma maldição. Seu marido deve tratá-la bem, não?"
"Sim", Nawar respondeu, sentindo-se cada vez menos confortável. E enquanto Salimah ia discorrendo sobre detalhes de sua antiga vida conjugal a moça ia se encolhendo um pouco no banco. Não tinha o costume de falar de si mesma, e ser exposta àquela intimidade repentina com uma quase desconhecida era para ela uma experiência digna de choque.

"Ela é jovem e bonita", o homem ao seu lado murmurou, fazendo Riyad voltar-se. "Tão cedo você vai precisar de  mais uma esposa."
Os outros homens acenaram em concordância, analisando a situação com absoluta seriedade. Riyad sorriu, aproximando-se deles.
"Quantas esposas os homens costumam ter por aqui?", indagou ao que fez o comentário.
"Não mais de três" ele disse em tom de conselho. "Senão, sua casa vai virar o inferno na terra."
"Vou me lembrar disso" o rapaz agradeceu. "
A metalúrgica ficava no leste da cidade, a região mais distante da zona das guerrilhas. Riyad viu os homens que o interpelaram descerem do ônibus numa velha olaria, algumas quadras antes da fábrica. Despediram-se de Riyad, alertando-o para que cuidasse bem da esposa. Ele assentiu em resposta.
Ficou pensando no quanto ele era mais velho que aqueles homens. Talvez mais do que todos juntos. Ainda assim, não desprezava nenhum conselho que recebia. Ouví-los era uma maneira de reviver seu próprio passado e refletir sobre seus erros, além de conhecer um pouco da pessoa que o aconselhava. O povo daquela cidade era caloroso, amigável e se importava com seus semelhantes. Os homens mais velhos dali podiam encarar facilmente um rapaz qualquer como filho deles.
Era uma das coisas que apreciava naquele lugar.
O céu amarelado se abria sobre a grande fábrica. Vizinha a alguns prédios abandonados, era uma construção que transmitia ao mesmo tempo uma robusta solidez e a sensação de que desabaria a qualquer momento.Os alicerces de rocha bruta estavam assentados sobre os vários desníveis de uma dupla de colinas debastadas pelo tempo,de onde erguiam-se as paredes de madeira, e seus telhados de diversas alturas e distâncias lembrou a Riyad as favelas construídas sobre os morros do sul da cidade. Ao subir as escadas de uma das entradas com os outros empregados, ele viu imensos corredores e salões onde o ferro era fundido, trabalhado e negociado ali mesmo entre os mineiros.
"Vamos vender o ferro também?", indagou a outro empregado, um rapazinho esquálido de ar doentio e barba por fazer. "Tem muito minério aqui", ele respondeu numa voz cansada, os olhos rodeados por imensas olheiras perdidos num ponto desconhecido. "Podemos ficar com as sobras. É parte do nosso pagamento."
Hadi era como se chamava. Tinha grande interesse em juntar dinheiro o bastante para ir embora do país. Contou a Riyad que tinha uma esposa e duas filhas, e moravam na área patrulhada pelos guardas do governo. Mudaram-se dali havia poucos dias, estavam na zona pobre e perturbada pela guerra. Mas ao menos ele ia para o trabalho um pouco mais tranquilo.
"Minha mulher trabalhava na lavanderia do hospital" ele contava enquanto esperavam numa fila num corredor, para receberem dos supervisores as indicações de seus locais de trabalho. "Minha filha mais velha cuidava da menor pra podermos trabalhar. Ficavam só as duas em casa. E um dos patrulheiros do lado de fora. Essa gente não é de confiança, rapaz... Não é de confiança."
Sua fisionomia estava extremamente carregada. Riyad sentia que ele queria realmente falar a respeito, mesmo que aquilo parecesse revolver as entranhas do pequeno homem.
"E onde estão suas filhas agora?" indagou ele.
"Em casa. A mãe diminuiu um turno pra ficar com elas. Pelo menos a chance de morrerem juntas é maior."
Hadi lançou um sorriso cansado ao rapaz. "Quando a felicidade de um homem é saber que sua esposa e filhas podem morrer junto uma da outra, é porque as coisas não vão bem."
"Realmente" Riyad concordou pesaroso.
"Mas é assim" ele prosseguiu enquanto avançavam lentamente na fila. "As bestas da guerra matam, explodem e queimam. Dão a uma pessoa uma morte violenta e digna. Mas as bestas do governo  não. São animais depravados e nojentos. E dão a uma pessoa uma existência de humilhação."
Ele fitou as faces amareladas do rapaz ao seu lado carregarem-se outra vez.
"Suas filhas estão bem?" indagou.
"Não" ele balançou a cabeça, baixando a voz num tom sombrio. "A mais velha não. Aqueles homens não prestam, rapaz. Aqueles homens são uns miseráveis filhos da puta. E por causa deles a menina está com a cabeça arruinada. Nunca mais vai ser a mesma."
"Sinto muito" Riyad pôs a mão sobre o ombro dele, consternado. "Quantos anos ela tem?"
"Oito."

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