A casa ficava numa espécie de conjunto residencial, na periferia da cidade.
Tinha dois andares, sendo cada um deles um apartamento. No de baixo morava uma viúva e sua mãe. Eles ficariam no segundo andar.
A porta de entrada dava para uma sala minúscula, que era o maior cômodo da residência. Num canto havia um tapete de lã crua trançada rusticamente, enrolado num longo tubo apoiado no canto atrás da porta. Devia ser desenrolado e usado como cama à noite, fazendo da sala de estar o quarto de dormir. A direita da porta ficava a entrada do banheiro, onde uma cortina de lençol velho servia de porta.
Depois do quarto-sala os cômodos seguiam em forma de L pela casa. A entrada da cozinha dava direto para o lavabo de pedra, que ficava abaixo da única janela que havia ali. Naquele corredor estreito não havia muito lugar para algo além dos varais de roupas à esquerda da pia e a pequena mesa de refeições, que era encostada na parede oposta. Da mesa em diante o corredor dobrava de ângulo e ia encontrar a parede lateral do banheiro, dando espaço apenas para um fogão de duas bocas e uma geladeira caindo aos pedaços.
O local inteiro não devia medir mais de dez metros quadrados, embora a proprietária do imóvel garantisse que o espaço interno era de 15x10. O prédio em si não era muito grande visto de fora, o que diminuia o espanto ao se ver o interior da residência.
Ao menos era o que Riyad pensava ao depositar as sacolas de viagem num canto da sala. Observou o modo como Nawar encarava as paredes, e imaginou se ela não sentia uma certa claustrofobia ali dentro.
Ela passou as mãos pelos cabelos cacheados e curtos, negros como os olhos que percorriam o aposento. Ficou alguns segundos parada, sentindo na sola dos pés o frio áspero do contrapiso do banheiro. Por fim a mão alcançou a torneira, e a água caiu numa torrente gelada sobre o corpo moreno e esguio.
Ele observava o conteúdo da geladeira. Havia um vaso de água, uma leiteira vazia e, por algum motivo, um jogo de chá em porcelana verde-clara, já bem desgastada. Pôs na gaveta inferior algumas verduras que tinham comprado no mercado e um pedaço de carne de carneiro no congelador sem porta.
Nawar apareceu na cozinha-lavabo, de banho tomado, usando um short velho e uma camiseta. Ele imaginou que ela não pretendia sair de casa no momento, a menos que quisesse trocar de roupa rapidamente. Deixou em cima da mesa uma bolsa de plástico e tirou dela duas panelas, dois pratos, dois copos, talheres em dois também. A princípio não usariam muita coisa ali dentro.
"Tem um pacote de temperos aí dentro?" Riyad indagou enquanto separava algumas batatas e cenouras em cima da mesa.
"Sim" ela apanhou um embrulho de papel pardo no fundo da bolsa.
Os dois se dividiram no serviço de cortar as verduras e preparar a carne. Enquanto Riyad ia tomar banho, Nawar lavava os pratos. Ele voltou poucos minutos depois, os cabelos castanhos e lisos caindo úmidos sobre o rosto, o porte alto dos homens do oeste naquele rapaz de traços fortes e ar sereno. Nawar reparou na roupa dele, calça escura e uma camisa militar bastante puída. Provavelmente ele sairia depois do jantar, para comprar cigarros ou algo assim. Esperava que fosse para comprar cigarros. Ela estava mesmo precisando fumar.
Comeram o cozido acompanhado de chá oolong. Conversaram pouco, palavras trocadas sobre as providências que teriam que tomar, as compras que precisariam fazer.
O silêncio que pairava entre eles, longe de parecer constrangedor, era orgânico. Eles pareciam necessitar ficar imersos em seus pensamentos, e respeitavam aquela necessidade mútua.
O relógio em seu pulso marcava as nove da noite. O ruído distante de bombardeios podia ser ouvido dali.
Riyad jogou fora a ponta do cigarro e fechou a janela.
O tapete fora estendido e ocupava toda a área da sala. Sobre ele Nawar havia se recostado, usando algumas roupas enroladas como travesseiro, o lençol cobrindo-a até o pescoço. Ressonava levemente. Riyad apagou a lâmpada da sala e da cozinha, deixando só a do banheiro acesa.
Tirou a camisa e trocou o jeans por uma bermuda folgada. Fazia um calor ao qual ele não estava acostumado. Deitou ao lado da garota e jogou o lençol sobre si, apoiando a cabeça no braço.
Ficou observando as feições curvilíneas do rosto delicado dela. Havia algo em Nawar que parecia despertar nos outros a vontade de protegê-la, embora Riyad soubesse que a última coisa que ela precisava era proteção. Fitou por um momento o anel dourado no dedo da mão dela, e então ergueu a própria mão, observando o anel que também havia ali.
'Então, é assim que é a vida de casados', pensou num sorriso cansado, adormecendo logo depois.

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